Pais e Filhos: O Romance-noir de Anne e Renato

Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência

Dedico esse texto ao meu irmão mais velho, à minha mãe, ao meu pai.

Eu estudava de manhã e minha rotina não era normal desde então. Ia pra escola às sete horas da manhã, voltava ao meio-dia, fazia o sagrado: comer, banho e dormir. Dormia até umas vinte e três e ficava acordada até ir novamente para o colégio. Eu tinha uns onze ou doze anos, cristã, dependente e completamente alienada.
Mas um dia, parecia que o mundo começou a girar para o lado contrário e o Sol já não era só o Sol e as rosas já não eram rosas e o vermelho tão berrante já não berrava assim.
Era de noite e o culto característico da Assembleia estava fazendo os vivos caírem em sono profundo. O grande galpão, cheio de cadeiras de plástico branco com cheiro característico de isopor, só tinha algumas pessoas. Era uma igreja que usava a harpa cristã. Um livreto de dez por doze centímetros com mais ou menos seiscentos e quarenta hinos que todas as pessoas cantavam como quem canta hino nacional na escola. Enquanto o meu pai, pastor da igreja, arranha um violão preto usando as mesmas quatro notas, minha irmã menor já começa a tentar tirar um “sound” das baquetas; minha mãe, casta e séria, olhava os outros com bondade e disciplina, trazendo de volta a atenção daqueles que se entediavam com a miserável rotina.
Eu, que já não me aguentava nem sentada, nem em pé, muito menos meus cotovelos podiam continuar apoiados nas ditas cadeiras, nem meus dedos podiam segurar minha cabeça pesada, peço solenemente a chave do carro para que eu dormisse um pouco, em vista de quão cedo eu acordava. Minha mãe me dá a chave e me acompanha até o carro me repreendendo, repreendendo o diabo de meu corpo, repreendendo os irmãos que ousavam cochichar enquanto ela dava as costas.
Abro a porta e me sento no banco do passageiro simulando um sono pesado e incontrolável. Ela bate a porta e a tranca. Desço o banco até que encoste no banco traseiro. Um silêncio absurdo e um frio de lascar. Eu pego o blazer do meu pai e curto o silêncio pensando em como poderia animar aquela igreja que parecia sempre um funeral.
Pensando o porquê do pecado e qual sua verdadeira forma, tive então uma vontade súbita de “pecar”, ali, na frente da igreja. Liguei o som do carro, que naquela época era de fita cassete e rádio FM. Procurei várias rádios, entre evangélicas e mundanas. Passei por funk, forró e sertanejo. “Um tapinha não dói” não fazia sentido nenhum para mim, então logo pulei para outra. Até que achei uma rádio que mais chiava que passava música, mas que de repente saiu um som audível e limpo e ouço uma frase: “Jeremias, maconheiro sem-vergonha, organizou a Rockonha e fez todo mundo dançar. Desvirginava mocinhas inocentes; se dizia que era crente mas não sabia rezar”. E isso parecia que estremecia as paredes daquele prédio ali atrás da Tesoura de Ouro. E o som parecia encher o carro. E o carro parecia ser meu altar. Uma música que parecia não acabar, mesclando o profano e o sagrado! Era o que eu precisava. Logo fui anotando em papéis que ficam na porta do carro um pouco daquelas palavras para achar alguém que pudesse reconhecer e me dizer o que tinha antes. Guardei no bolso do blazer e deitei.
Dias depois, quando a vontade de ouvir aquilo que não reconheci e que tanto me encantou já tinha morrido com as repreensões severas de minha mãe, já parecia não ter mais sentido. Lembro desse dia, como se fosse hoje ou ontem. Meu pai estava com aquele blazer que dormi. Assim que chegou da igreja, colocou a mão no bolso e tirou alguns daqueles extratos de cartão de crédito e um deles foi o que usei para anotar a música. Pegou o violão que estava no sofá de minha casa e começou a tocar algumas notas, notas essas que pareciam fazer sentido pra mim, repintando o mesmo quadro que tinha visto antes.
Conversamos horas sobre o que ele era e o que era aquilo que ouvi. Meu pai toca “Faroeste Caboclo” como se tivesse voltado nesse momento para a QNL de Taguatinga nos anos oitenta. Ele sua e fecha os olhos e aperta as cordas do violão com fervor. Sua testa está vermelha e o paletó começa a ficar molhado. Chove lá fora e a casa parece nossa. Passou-se uma hora e ele me conta sua história do show que teve a famosa briga aqui em BSB e o quão perto ele estava do palco. Pega seu caderno de escola e me mostra rabiscos que fazia enquanto ouvia Legião. Já são meia-noite e ele ainda nem tinha tocado tudo.
De repente sai minha mãe do quarto e pede “Pais e Filhos”. Eles se olham durante alguns minutos em silêncio, como se estivessem conversando (coisas que geminianos e cancerianos fazem com maestria: conversar com os olhos). Meu pai começa com os acordes e agora não sua e nem soa. Os olhos tão sérios de minha mãe se umedecem e ninguém canta. Só o som do violão soa por toda a casa. Nós três sentados na sala com um pesar danado. Minha mãe segura minha mão e me conta uma história de que teve um filho na adolescência e que o enterrou com essa música. Ela disse: “Meus amigos de escola, todos, uns cinquenta, cantando ‘Pais e Filhos’, com no máximo dezoito anos cada um... Fazendo coro diante da cova...”.
Engoli seco e, dali em diante, ouvir Legião era como enterrar novamente um bebê, ser parte daquele funeral. “NÃO!” Eu dizia quando alguém ousava tocar. “NÃO!” Eu gritava quando falavam sobre Legião. Eu não queria aquele peso para mim.
Mas acredito, e como acredito, que a música tem o poder de curar, transcender, renovar. Muitos brigavam e até me xingavam pela a aversão ao Renato, à Legião Urbana... Mas não entendiam. Chegaram outros até homônimos ao meu medo, outros de nome estranho, sempre me servindo Legião em doses grandes, mas não deu.
Cinco anos se passaram, e passou o Carnaval, e os mesmos olhos que me olharam umedecidos naquele dia olhavam agora para mim fazendo as malas e indo embora. Meu pai que tinha feito o mesmo há exatos vinte anos antes olhava como quem assiste “Poderoso Chefão”: frio e atento.
Demorou para a ficha cair, mas um dia, na tão charmosa Red House (carinhosamente chamada assim pelos assíduos frequentadores, mas também conhecida como a casa da Anne), eu estava só com o notebook do Devana e com o coração em pedaços. Do notebook começou a sair “La Maison Dieu”. Parecia tão aceitável. Tão belo. Tão íntimo. Era eu, Renato Russo, Dado e Bonfá no meu sofá laranja que ficava na sala. E numa conversa resolvemo-nos e curamo-nos mutuamente. A partir daí eu compreendo o que Renato diz e ele diz o que preciso ouvir ou o que não consigo falar.
Chove lá fora novamente, mas o vento já não me assusta mais. Agora vejo quão bonito é quando as pessoas cantam Legião Urbana. Desde sertanejos, funkeiros que aprenderam naquelas revistinhas de violão, menininhas que assistem novelas, Paulo Dagomé, Gil William, Nilson do Violão, Junior Rillie, Isaac: eles cantam e as músicas os tocam tão fortemente que os trejeitos do Renato Russo se fazem presentes no meio. O modo de se portar ou sentir a música fica mais apurado. É lindo como Renato conseguiu desenrolar um dos mais conturbados relacionamentos, que é o entre pais e filhos. Como ele consegue falar da dor sem fazer doer.
Hoje, faz quinze anos da morte de Renato Russo. Sem dúvida foi um dos melhores músicos que o Brasil teve. A facilidade de trazer tão mastigado e simples um conhecimento distante para tantos, a verdade e o “feeling”, único e indizível, a soberania humilde. Hoje faz quinze anos e ainda se ouvem suas músicas nas rodas de amigos. Daqui a um mês é aniversário do bebê.
Do arquivo do blog – 03/08/10:
Então, quando o desespero já tinha batido com a força de dez batalhões, com vinte mil soldados em minha cabeça, comecei a ver a real situação. (... ) Naquele dia ‘Pais e Filhos’ ganhou uma nova conotação, ganhou uma versão que foi levada à capela, erguidas sobre um campo verde cheio de esperanças. ‘Ela’ ainda não consegue falar muito sobre isso e eu nem quero entrar nesse quesito. Mas eu ouvi essa história diversas vezes e entendo.
Quando ouço uma música é como se eu fosse transportada no tempo e espaço, começando a me ver na mais recente memória que tenho daquela música. Por exemplo, quando ouço ‘Ball and Chain’, de Janis Joplin, me transporto automaticamente para a Califórnia, no Monterey Pop Festival, e consigo ver ela desabrochando como uma rosa no palco que ficou pequeno para ela. Quando ouço ‘The Wall’, do Pink Floyd, me sinto no meio daquela multidão de crianças que fizeram o filme, e vejo descendo de um helicóptero umas das mais potentes mentes que já esteve sobre a Terra. (...) Mas quando penso em Legião, as lembranças que tenho não são tão boas. Me transporto para um lugar fúnebre, para uma calçada molhada, para uma rua sem fim. Mas me esforcei e me lembrei! Lembrei de um dia, um dia antes citado em que em minha casa fizeram um culto. Eu estava tão bêbada que não percebi, mas as músicas dele estavam passando repetidamente e eu me sentia bem.
(...) É uma vergonha tão pessoal e um orgulho tão momentâneo.

Anne K.

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