A verdade sobre a escola


Costumo dizer que o colegial é uma creche para adolescentes.


Os garotos vão para lá por um período, fingem que aprendem, seus professores fingem que tem algum interesse no aprendizado de seus alunos e o governo finge que oferece educação a seus futuros votantes. E tenho mais a dizer: boa parte da parte relevante de meu conhecimento provém de meios alheios à escola. O que eu vejo são milhões de fórmulas de física das quais eu e milhões de alunos não usaremos sequer um radiano em nossas vidas futuras. Milhões de regras gramaticais das quais não precisaremos de um ponto, sendo que muitos não escreverão senão bilhetes rápidos, e os que escreverem algo um pouco mais longo provavelmente não sentirão falta delas. Fatos históricos inúmeros com desdobramentos inumeráveis, mas, no fundo no fundo e em essência, são todos conhecimentos deitáveis fora, e que se resistem à posteridade é puramente por alguma aptidão pessoal de alguns alunos específicos. Generalizar isso a milhares de alunos em função de algumas dezenas que o saberão naturalmente por sua própria aptidão é um erro atroz. O fato é que as pessoas dão uma importância demasiada à escola, ao ponto de tratá-la como fonte absoluta e bastante de conhecimentos.

Não quero dizer com isso que a escola não tenha absolutamente relevância. Muito pelo contrário, nos dias atuais, tem relevância especial. Mas, como muitas coisas que provavelmente serão citadas neste veículo, sua existência provocou sua necessidade. No atual processo, a inexistência de uma instituição como esta levaria os jovens a situação parecida com a de um animal domesticado que, sendo toda a vida pajeado em casa, voltando à selva já não conseguiria sobreviver sozinho, e então morre em um meio que deveria ser de seu completo domínio. Assim ocorre hoje. Em tempos mais antigos, não haviam escolas. Todos adquiriam os conhecimentos que queriam. (O que vem a ser uma hipocrisia, pois tirados as mulheres, os escravos, as crianças, os estrangeiros, os de cor diferente, os gays... o que se pode chamar de todos?). Foi nesse período que surgiram os mais visionários cientistas, os mais relevantes filósofos, os mais inspirados músicos, e muitas das coisas que entraram pros anais da História ou que fazem hoje parte de nosso dia a dia. Todos aqueles o fizeram a partir do próprio conhecimento. Daí os conhecimentos tornaram-se muitos e por motivos didáticos tiveram de ser divididos. Surgiram assim as nossas conhecidas e odiadas matérias. Logo, para encurtar o processo de conhecimento da sabedoria adquirida e formulada durante anos, esse sistema foi surgindo pouco a pouco. Hoje, se as pessoas tivessem de ser autodidatas, seriam ainda mais ignorantes do que o são. Nesse caso, se as pessoas não aprendem em lugar nenhum, então a escola tem um papel importante na formação de um jovem que não quer ser formado.

Mas a escola é, na verdade, e devia ser encarada dessa forma, uma metáfora da vida em sociedade, sendo esta uma das partes mais relevantes e mais perpétuas de uma instituição de ensino. Vejam vocês, e verifiquem a veracidade do fato. Em qualquer sala de aula do circuito normal de ensino de qualquer lugar da Via Láctea, sempre tem aquele (ou, mais precisamente, não querendo parecer machista, aquela) que toma parte da limpeza da sala, os que se manifestam em nome da turma cobrando atitude dos representantes, os que representam, os que dominam e os que são dominados. Uma minoria que recebe muito e uma maioria que recebe pouco (no caso o contracheque seria o boletim e a nota é o soldo em questão) e por aí vai, uns cuidando e outros usufruindo o bem estar da turma em relações de amor, ódio ou inércia, ou seja, mais ou menos como uma miniatura da sociedade. Porém entre os muros do colégio estamos meio que protegidos. Mas é aqui que vamos sendo domesticados para a vida para valer, onde aprendemos a nos socializar e onde criamos muitos dos nossos aliados e inimigos. A matéria que vemos no maldito quadro negro acaba sendo um pano de fundo para essas situações. Então, não se deve dar uma importância absoluta ao colégio. Tirar uma nota baixa, perder um bimestre, não entregar um trabalho, faltar um dia de aula, não é motivo para o mundo acabar. Se, por exemplo, um dever que apenas somado a mais uns dez te dará um mísero ponto ao final do bimestre, e paralelo a ele, uma música estiver para vir e der sinais de que nunca mais virá sem deficiências significativas, não hesitaria em compor a música. Até mesmo porque eu posso assimilar quase tudo o que se passa na sala de aula, inclusive aquelas informações que vem nas entrelinhas.e, por favor, não exagerem o que eu digo. É óbvio que sempre tem aquela função em matemática em que você se distraiu, aquela formula de física que você não entendeu e variantes. Mas num contexto geral a matéria esta lá. Enfim: dêem a devida importância ao colégio mas existem coisas mais importantes que a escola.



A Gazeta do Oprimido surge no cenário do Centrão [Escola pública de ensino médio de São Sebastião] como instrumento de erupção de novas propostas de libertação da alma humana e de interrupção dos comportamentos daninhos ao conjunto dos que sonham com uma sociedade fraterna. Nosso jornal pretende se posicionar na vanguarda das ações e reações que vão promover horizontes outros para a parcela da população colegial excluída do processo de discussão sobre os principais problemas sociais, políticos e econômicos enfrentados por nossa sociedade. Este veiculo vai compor uma barreira ideológica, disposta horizontalmente, vomitando conteúdos para a construção de uma nova maneira de ver o mundo, livre das amarras cotidianas dos governos, das direções, dos professores, das famílias, da igreja, e reduzindo toda proposta arbitrária a pó. A Gazeta não cessará desta luta até desistir ao desmoronamento completo desta estrutura suja que domina almas e mentes, comportamentos e decisões. Enforcaremos verbalmente cada administrador corrupto com as gravatas de cada vereador vendido. Cada Presidente incompetente com o cadarço do senador inútil. Apunhalaremos verborragicamente bacharéis e diplomatas sem ética ou moral até sufocá-los na podridão fétida de seus palácios emporcalhados pela lama moral. Nossas cabeças estarão erguidas para assistir à ignomínia de todos os vermes sociais. A Gazeta dará a manchete final: SUCUMBEM NA LAMA OS VERMES VIS DA RAÇA HUMANA!



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Devana Babu

O Diogo Mainardi do Centrão

“Gazeta do Oprimido”, setembro de 2005.

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