Subserviência com os grandes; arrogância com os pequenos



Foi gente que nunca suportei: promotor, sacristão, cachorro e soldado de polícia. Mas tem um tipo que é a mistura desses quatro piorados, e que é imediatamente pior do que gente submissa: gente que submete. Gente que tem mania de pensar que sua posição de "superioridade" nas vigentes hierarquias sociais lhes dá uma espécie de certificado de superioridade nos campos filosófico e prático, quando na verdade só existe uma espécie de contrato em que o infeliz que teve a má sorte de ser inferior se imbuiu da tarefa de fingir que sabe menos do que o seu "superior", que se vale de ter vivido as situações antes para também fingir que é o mais esperto e tem o direito de mandar. Por mais que o "inferior" seja o próprio João grilo e o "superior" seja o nada mais que ricaço Major Antônio Morais.

A esse fenômeno damos o nome de moralzinha.

A titulo de esclarecimento estatístico, a moralzinha é um fenômeno muito comum em todas as regiões do planeta e em todas as estações do ano, mas sofre uma baixa significativa durante o verão, já que é a época em que geralmente cessa o período letivo. E é relativamente comum em todas as faixas etárias, mas merece especial atenção em uma determinada faixa, já que a incidência da moralzinha nela é praticamente absoluta.

É claro que me refiro aos adultos. Não podiam ser outros senão essas pestes superdesenvolvidas e em idade produtiva. Afinal de contas, eles são responsáveis pela nossa filosofia, eles são os donos da imprensa e da mídia, eles são os donos da maioria das residências, eles são os donos do nosso conhecimento, eles são os donos dos meios de produção, eles são os donos do sistema capitalista, enfim, os donos da compra e da venda. Eles são os donos da nossa vida, eles são donos da verdade, eles são donos do mundo.

Os adultos são fortes, práticos, ágeis, responsáveis. E completamente burros. Tapados mesmo. Parece absurdo, mas não é.

E é por causa dessa burrice que eles têm a idéia fixa de que todos os indivíduos de outras idades têm de se curvar a eles, têm de prostrar-se aos seus caprichos doentes, e justamente por isso eles praticam constante e imoderadamente a moralzinha.

Basicamente, a moralzinha tem dois aspectos vitais:

I - é a manifestação mais irracional do orgulho atroz que corrói corações e mentes de todos os adultos, que, para não ter que pensar numa justificativa para seus atos irracionais, até porque nem querendo eles conseguiriam então se valem de sua posição de engrenagem incorrosível do mundo todo como uma garantia de que estão certos. E PRONTO! FIM DE PAPO! ENGOLE O CHORO!

PS: também é uma forma de mostrar autoridade, dizendo que não tem que dar satisfação porque afinal o adulto é o fodão e nós não somos nada.

II – é uma forma de manter intocada a sua posição de classe dominante e insubstituível, para que nunca deixemos de depender deles, ou, pelo menos, para que a gente não perceba que nunca foi.

Só que os adultos, do alto de sua superioridade, jamais poderão perceber que eles não são mais inteligentes e nem mais aptos do que nós, pobres mortais que não amadureceram ou que já estão podres. Aháááá!!!! Vocês não contavam com a minha astúcia nem com a do Chapolin Colorado!'

A única coisa com o que os adultos contam de verdade para exercer sua moralzinha: eles são mais vividos. Ou como eles gostam de dizer, mais experientes.

Os “maduros” aprenderam tudo o que achavam que tinham de aprender para perseguir seu ideal frívolo de "subir na vida" e sistematizaram tudo isso, como um programa, muito prático, mas não editável. Eles tipo "ziparam" todos os seus L:ldos, formataram seu cérebro e o atrofiaram.

As crianças têm um cérebro completamente disforme, e quase vazio, mas assimilam tudo muito rápido. Como é conveniente que os adultos sejam superiores, eles fornecem ás crianças todos os meios necessários para que eles não tenham que evoluir mais do que o permitido; e os velhos, além de serem burros como . os adultos, são "inúteis como as crianças, porque já foram todos os dois, e agora sofrem com a sua invalidez em um canto qualquer, sujeitos à mesma rejeição a que sujeitaram outros velhos quando adultos.

Então, quem está de fato apto para tomar o poder dos adultos somos nós adolescentes, que estamos na puberdade, que na verdade é outra invenção dos adultos, porque a puberdade começa quando a gente nasce e acaba quando a gente morre. E a maioria de nós acaba acreditando mesmo, como aquelas mocinhas que se vestem igualzinho à mãe e vão pra igreja direitinho, ou aqueles rapazes de 18 anos que não chegam depois das 7:30 em casa nem de vez em quando, por que os pais não deixam.

Felizmente alguns de nós se rebelam contra a moralzinha, mas não raras vezes a gente acredita na imagem que criam de que somos Rebeldes Sem causa. Humpf! Rebeldes sem causa são aqueles mexicanos desgraçados. Nós somos mais inteligentes do que pensamos, temos capacidade de adquirir massa muscular, temos muito mais ânimo, mais tutano, afinal, como a gente tá em fase de crescimento a gente se dá ao direito de comer pra c...aramba, a gente tem hormônios que não acaba mais, e não somos atrofiados. Aprendemos o quanto queremos, criamos e recriamos, não nos prendemos ao padrão, que atrasa. Enfim, caras, já ta na hora de a gente assumir o comando dessa nave desgovernada.

Nosso consolo é que se isso não acontecer nessa geração, em poucos anos nós também seremos adultos e poderemos exercer nossa moralzinha contra nossos filhos e netos. D. b.

Devana Babu é correspondente do RN no Distrito Federal e escreve no blog "www.devaneios de babu.blogspot.com" e exerce a moralzinha sobre seus irmãos.

Fevereiro de 2007.

SuperNovas

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