Síntese do blackout e da abstinência televisiva em São Sebastião

Montagem tosca: d.b.; quem dedurar para Matt Groenning será perseguido e executado.


por Edvair Ribeiro*

Nos últimos tempos (há cerca de vinte anos) tem pairado sobre o DF e, assustadoramente, sobre são Sebastião, um ar meio que tenso, uma carga espectral de medo, de incerteza, que começa com o nascer do dia, vai acompanhando a evolução do sol e se intensifica com o cair da tarde, com a densidade ou não das nuvens. Uma pergunta se recusa calar-se: Será que vai faltar luz?
Essa interrogação, com perfil de virose epidêmica paranóica, tem se alastrado rapidamente nas cabeças e nas mentes do povo de San Sebastian, principalmente agora que se aproxima o final da novela das oito, que se inicia às nove (com a minha nas índias) e tem frustrado os telespectadores da mesma. É que, todo santo dia, quando vai ser exibido um daqueles capítulos emocionantes dessa trama de cunho altamente cultural, por relatar os complexos de cornitude e as fobias de assumi-la por parte dos adoradores de vacas, que já conseguiram incutir alguns ritos de sua religião ao nosso sincretismo, também religioso. Dizem que, por ter encontrado aqui sentimentos congêneres com relação à ABS, ADQUIRED BULL SÍNDROME, em inglês, ou STA - SINDROME DA TAURICE ADQUIRIDA, em português, a luz acaba.
Esse é um fato que muito tem se repetido nos últimos dias, meses e, talvez, anos - por que, no escuro, eu perdi noção do tempo. É isso amigos. A claridade noturna que se constitui um direito das áreas urbanas tem se tornado uma incerteza para a comunidade de São Sebas. Sim, caros leitores, é com os batimentos cardíacos descompassados que nós nos colocamos diante da telinha para assimilar informação, nos divertirmos e nos aculturarmos. E é com a freqüência 101/100, e com precisão de sabotagem profissional, como se sabotadores tivessem sido treinados pelos reacionários capitalistas da CIA (síndrome de Brizola) ou pelos ideologistas do KGB (Síndrome de Truman) estivessem encarregados de fazer ocorrer, às vésperas de todo anticlímax novelístico ou futebolístico, uma queda súbita de energia.
É preciso tomar atitudes urgentes, porque esses blackouts têm causado distúrbios domésticos, sociais, sociológicos e de ordem trabalhistas entre a população de são Sebastião. Explico: Ao voltar pra casa, depois de um estafante dia de trabalho, os esposos héteros já vem preocupados com a possibilidade de não poder ver uma pontinha da novela das oito, que alguns deles, quando podem, assistem meio que disfarçando por terem repetido tantas vezes que novela não é coisa de homem, e agora mesmo estando convencidos do contrario não são homens suficientes para admiti-lo. Já as esposas depois de um dia igualmente árduo durante o mesmo retorno para o lar, vem ansiando pelos instantes de sonho que lhes serão proporcionados pelas tramas novelísticas quando poderão se sentar diante da TV e suspirar pelos galãs das novelas, enquanto olham de soslaio para o marido ao lado e ficam a fazer comparações mentais, se culpando pela escolha feita no arroubo de uma suposta paixão, às vezes sem saber que a recíproca por parte de Ambos é verdadeira, e já sofrendo com a possibilidade da pane na rede elétrica. E quando eles, os esposos e esposas, chegam aos respectivos lares e tem os seus intentos frustrados imediatamente, direcionam suas cargas de stress para quem estiver mais próximo: Para eles mesmos, para as crianças, os vizinhos e, não raro (isso no caso dos homens homens de algumas mulheres-homens e de homens-mulheres), para algum desafeto de beira de balcão de bar, do tipo-copo-sujo, que proliferam por nossa cidade.
Contam-se casos de algumas crianças, na faixa dos dez anos, que voltaram a fazer xixi na cama e a chupar a ponta da fralda e da camisa. Isso conseqüência da falta dos programas televisivos como a fazenda, CQC, pânico na TV e outras. Isso inclui alguns adultos, que levantam no meio da noite, sentam-se no sofá da sala com uma vela acesa numa das mãos e ficam manuseando o controle remoto com a outra, os olhos vidrados, próprios dos desequilibrados mentais, fixos no adormecido aparelho de TV. Aí então, vitimas das noites insones, das contendas domésticas e de algumas escoriações, conseqüência de entreveros, altero copistas, os senhores (as) vão para o trabalho no dia seguinte, mal dormidos, mal humorados e, com isso, tem um péssimo rendimento profissional. Resultado: Uns levam escrachos dos patrões, outros são demitidos. No público infanto-estudantíl, tem aumentado a incidência de notas vermelhas e, em conseqüência, de puxões de orelhas nos pais durante reuniões da RPM (reunião de pais e mestres), até com ameaças de intervenção do conselho tutelar. Porque é fato comprovado que, para assistir a um programa de televisão, nós relegamos nossos filhos a segundo plano, e na falta de energia, enquanto ficamos na expectativa do retorno da mesma, continuamos a fazê-lo. Tomei conhecimento de fonte oficiosa do caso de dois irmãos, um maior de idade e outro adolescente, membro de uma dessas denominadas “boas famílias” que, para não perder o seu programa favorito, dividem a tela de um telefone celular e ficam até altas horas revezando, por turnos, a sustentação do aparelho. Eles, os irmãos, tem que assistir aos programas com as faces praticamente coladas, por causa do reduzido tamanho da tela do aparelho. Quanto a mim, esse Blackout tem causado pouco estrago, por que agor,a ciente do ridículo de algumas das práticas acima relacionadas (ver partes de novela às escondidas, madrugar diante do aparelho desligado da televisão), eu estou me reeducando, do alto do meu 1/4 de grossa rede de neurônios ativos, estou reavaliando minhas crenças e meus valores e comecei tomando uma atitude de cunho econômico, ecológico, pelo menos enquanto durar as incidências dos Blackouts em São Sebastião: Vou retomar os costumes dos meus antepassados quilombolas, e agora só tomarei banho frio.


*Edvair Ribeiro é adulto e tem medo do escuro até hoje


d.b.; co-editor fã de fear of the dark.

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