Perda

Enquanto todos dormiam a mãe chorava e balançava a rede do seu bebezinho que estava muito doente. Numa casinha de barro (taipa) bem humilde, um casal ainda jovem fazia sentinela ao lado daquela rede pequenininha esticada num canto da casinha. Acima da pequena redinha, havia uma tábua pregada na parede em forma de prateleira, que comportava uma lamparina de pavio de algodão molhado com querosene. Essa lamparina iluminava parte daquele ambiente. A luz era sombria e amarelada. As sombras das pessoas presentes naquele local pareciam fantasmas naquelas paredes avermelhadas de barro. O resto dos filhos que não eram poucos estava espalhado em redes esticadas nos outros cômodos da casinha de barro. Todos dormindo, menos a filha mais velha, que lá de sua redinha via todo o movimento.

O bebê estava nos seus últimos minutos de vida, e sua mãe chorava muito ao lado de sua redinha branca com franjas bem grandes de renda. O pai triste, mas consciente da situação, sabia que seu filho iria para o céu nos próximos minutos. Ele mantinha uma expressão triste, mas bem sereno, sem movimentos bruscos. A mãe não se agüentava de tanta tristeza e desespero, ia ficar sem o seu bebezinho de apenas seis meses. A vida daquele bebezinho já estava terminando tão logo havia começado. A irmã mais velha olhava tudo de longe sem que ninguém a visse, não sabia o que estava acontecendo, mas pela cara de sua mãe imaginava algo desesperador. Já era madrugada e aquela cena continuava do mesmo jeito, nada mudava, nem mesmo a posição das pessoas. Elas pareciam estátuas, pareciam que estavam congeladas. A expressão no rosto de cada uma delas era assustadora. Aquela pequena menina de apenas sete anos de idade estava muito assustada, ela não conseguia nem dormir e assim como as outras pessoas que estavam presentes ela também não mudava de posição, permanecia imóvel. As horas se passando e a tristeza cada vez mais presente na face daquela gente. De repente as pessoas começaram a se movimentar com rapidez, e mais rápido, indo de um lado para o outro. A pequenina não sabia o que fazer, continuou observando em silêncio.

A mãe do bebê começa a chorar mais forte e abraça a pequena redinha. Desesperada com aquela situação a menininha de sete anos começa a ficar apavorada, olha pra todos os lados e ninguém está vendo o seu desespero. Ela se levanta de sua rede e vão de encontro á rede do bebê, só nesse momento é que percebem que ela estava acordada o tempo todo vendo todo o movimento.

Já era dia, e o sofrimento estava mais forte no rosto de cada um naquele local. A sua mãe não conseguia ver sua pequena, sua dor era maior. Como ninguém se dava conta de sua presença e da sua curiosidade, a pequena se aproximou da redinha branca de franjas de renda e viu seu pequenino irmão imóvel. Aí o sofrimento também se fez presente em seu rostinho. O seu irmãozinho foi ao encontro de papai do céu.

Nanah

"De Salto Alto", junho de 2007, p. 2.

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