Pequenos Gênios


Crianças e adolescentes superdotados de Brasília são capazes de façanhas como planejar cidade, escreve livros, estudar o Universo, discutir filosofia, debater política e ganhar Olimpíada de Matemática. Nem doenças nem dificuldades financeiras são obstáculos para esses fenômenos.

GENIALIDADE NA INFÂNCIA

Superdotados do DF superram dificuldades e mostram talento incomum

Marina Medleg
Repórter

Devana Babu leu o intrincado "Manifesto Comunista", de Karl Marx, há dois anos. Seu livro de cabeceira é "A metamorfose", de Franz Kafka, aquele em que um homem se transforma numa barata. Normal para aqueles mais letrados, mas não para um garoto de 14 anos, morador de São Sebastião, uma das cidades mais pobres do Distrito Federal. Seu nome verdadeiro é Paulo Sérgio Sena Santos Júnior, mas ele optou em ser chamado de Devana Babu. "Vi no dicionário que babu significa 'senhor' em hindu", conta.

"Sou muito curioso. Leio desde os quatro anos, um hábito que fui incorporando. Meu pai sempre leu muito", explica o menino miúdo e doce referindo-se ao pai, Paulo Dagomé, vigilante noturno da escola onde cursa o primeiro ano do ensino médio.

Dos livros surgiu a paixão pela escrita Hoje ele é famoso na escola e nas ruas de São Sebastião ("um popstarzinho", segundo o pai) pelos textos que escreve. Faz reflexões contundentes, desconcertantes, pontuadas por um incrível teor crítico e vocabulário arrojado. É difícil imaginar que foram produzidos por um garoto tão jovem.
 

Devana nunca fez um teste de QI, mas se enquadra na definição de criança superdotada (...). “Ninguém nunca pensou nisso, mas pode ser uma boa idéia”, anima-se o pai. Com teste ou sem teste, Devana segue de forma precoce a carreira de escritor. Na casa humilde e precária de dois cômodos, encontra espaço para acomodar livros, discos (adora samba, rock, blues, Noel Rosa, Caetano), o violão e um computador, adquirido por meio de um prêmio que o pai recebeu.

Aos 12 anos, começou a investir em poemas e sentiu vontade de escrever mais e mais: “Tive necessidade de expressar idéias políticas e filosóficas”. Foi quando nasceu “O Esdrúxulo”, sobre a situação marginal da periferia. O livre parece um fanzine e foi ilustrado por Luiz Paulo Rodrigues, de 17 anos. Com a cara e a coragem, os meninos foram vendê-lo a R$ 2,00 na última Feira do Livro de Brasília. “Vendemos muito!”, diz.

A inquietação não parou. Quis fazer um jornal para afixá-lo nos murais do colégio. Surgia “A Gazeta do Oprimido”, com idéias e desenhos da duplinha. O conteúdo polêmico causou certo mal-estar entre os professores. Em uma das edições, Devana critica ferozmente o atual método de ensino. “O conhecimento é muito mastigado. Você não tem a oportunidade de construir a sua idéia, nem de entender o que está aprendendo. Eu tive dificuldade com isso, tentava entender a matéria”, aponta.

E o que vem por aí? Mais polêmica. Está terminando o romance “Entre Deus e o diabo”, com discussões religiosas. Sonhos para o futuro? “Quero ser jornalista. Acho legal fazer reportagem. Mas não sei. Gosto mesmo é de opinião”, assinala.

Trecho de texto de Devana Babu

“A escola é, na verdade, e devia ser encarada dessa forma, uma metáfora da vida em sociedade, sendo esta uma das partes mais relevantes e mais perpétuas de uma instituição de ensino. Vejam vocês, e verifiquem a veracidade do fato: em qualquer sala de aula do circuito normal de ensino de qualquer lugar da Via Láctea, sempre tem aquele (ou, mais precisamente,não querendo parecer machista, aquela) que toma parte da limpeza da sala, os que se manifestam em nome da turma cobrando atitude dos representantes, os que representam, os que dominam e os que são dominados. Uma minoria que recebe muito e uma maioria que recebe pouco (no caso o contracheque seria o boletim e a nota é o soldo em questão) e por aí vai,uns cuidando e outros usufruindo do bem estar da turma em relações de amor, ódio ou inércia, ou seja, mais ou menos como uma miniatura da sociedade.”


Fonte: Hoje em Dia – Caderno Brasília, 26 de março a 1º de abril, n.º 464, p. 10.

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