As idéias e obras de Devana Babu, 14 anos



Aplaudido nas ruas de São Sebastião, onde costuma ler seus poemas, adolescente surpreende com a irreverência e a riqueza de contos, crônicas e histórias de mistério

 
Marcelo Abreu

Da equipe do Correio


Naquela casa humilde de dois quartos, uma sala apertada, um banheiro e uma cozinha feita num puxadinho, com chão de cimento e cerâmica, um menino de 14 anos fala sobre A Divina Comédia, do poeta italiano Dante Alighieri. Conta que não terminou de ler. Ora se divide entre o clássico e os romances de Jorge Amado. Adorou Fernando Sabino. É fã do Millôr Fernandes. Ama rock’n’roll, até tem uma banda. Quando quer escrever, prefere fazê-lo ao som de Noel Rosa, em velhos vinis, que o pai compra em sebos musicais. O pai do menino é vigilante da escola onde o filho estuda e também escritor e pintor de quadros nas horas vagas. O menino, negro, miúdo e pobre, mora em São Sebastião e se chama Devana Babu.

O quê? Calma, leitor, ele mesmo vai explicar: “É o meu nome artístico. Devana significa senhor em hindu, é como se fosse uma saudação. E Babu vem de babuíno, do macaco, dos nossos ancestrais. Acabei reduzindo, por pura preguiça, a palavra e acrescentei ao Devana. Aí, virou Devana Babu”. A conversa começa assim. De calça jeans rasgada, camiseta preta e tênis surrado, o menino recebe o interlocutor. A prosa é em cima de um tablado de madeira que o pai construiu e que vira palco nas noites de saraus. Sim, Devana Babu sai às noites pela cidade e diz suas poesias. É aplaudido. Não há, entre os poetas de São Sebastião e redondezas, quem nunca ouviu falar do seu nome.

Devana Babu é irreverente. Surpreende o repórter a cada resposta. Atiça-o. E o provoca, com respostas desconcertantes. É rigorosamente sincero. Acha que a escola – não só a sua, mas todas – estão muito aquém da sua melhor função. Perderam-se pelo caminho. Tornaram-se obsoletas (leia texto abaixo). Mas é numa delas, o Centro de Ensino Médio 1 de São Sebastião, o Centrão, que o menino estuda. Cursa o 1º ano do ensino médio. E foi lá, numa aula de inglês, no ano passado, que Devana Babu teve uma grande idéia. Escrever uma história. Chamou o melhor amigo, o desenhista Luiz Paulo Rodrigues, de 17 anos (que atende pelo nome de Próton) também aluno do Centrão, e juntos criaram O Esdrúxulo.

Devana escreveu. Próton ilustrou a obra, que fala sobre São Sebastião, suas mazelas e o preconceito que recai sobre ela. É como se fosse outro planeta. É como se eles realmente vivessem noutro mundo. Em cinco folhas de papel ofício grampeadas e xerocadas, O Esdrúxulo correu a escola. Emocionou quem leu. Fez cada um refletir sobre a própria realidade. Talvez, pela primeira vez, os colegas de escola de Devana Babu perceberam os anos-luz (na verdade a distância é de apenas 25 km) que separaram São Sebastião do Plano Piloto.

O livro xerocado parou na Feira do Livro de Brasília, realizada em setembro, no Pátio Brasil. Com ajuda do pai vigilante, Devana Babu e Próton chegaram ao shopping. Venderam mais de 100 livros. Participaram, até, de encontros com leitores consagrados. E já preparam o segundo volume da obra. “O personagem de O Esdrúxulo não sou eu, mas é inspirado em mim”, admite. E diz, completamente emocionado: “Eu escrevo como quem brinca. Tenho um enorme prazer de usar a linguagem dessa forma”.

Este ano, depois de O Esdrúxulo, Devana Babu teve uma outra grande idéia. Surgiu, mais uma vez, enquanto assistia a uma aula monótona. Quis fazer um jornal. “É, um jornal onde eu pudesse escrever sobre temas rotineiros, comentar alguma coisa”. E o fez. Chamou novamente Próton, para ilustrar o periódico, e foi à luta. Nasceu A Gazeta do oprimido. Em folhas de papel ofício, escreveu o Manifesto em prol da cola. Afixou-o, com autorização da direção, no mural. Virou o comentário da escola. Recorde de leitura.

E as histórias se sucederam. Ele criou crônicas, pequenos contos e histórias de mistérios. Há um mês, em mais uma edição da Gazeta do oprimido, Devana Babu se superou. Fez a crônica A Verdade da escola. “Só escrevi ali exatamente o que penso sobre o assunto”. Dessa vez, o jornalzinho não foi bem aceito. Alguns professores se sentiram ofendidos. “De fato, alguns ficaram assustados com o que leram, mas eu lhes disse que as críticas eram para as escolas em geral, ele não estava particularizando ninguém”, defende a diretora do Centrão, Ineide Santini, de 42 anos. E comenta: “O Paulo Sérgio gosta de escrever e lê muito. É inteligente mas só para o que lhe interessa. As notas não estão muito boas”. Paulo Dagomé, de 41 anos, pai de Devana Babu, vigilante da escola onde o filho estuda e seu maior incentivador, confirma: “Todo mês, o boletim do Juninho nos dá um susto. Mas ele sempre passa de ano”.

A edição da Gazeta do oprimido, em que Devana Babu critica a ineficiência da escola, foi retirada do mural. As próximas? Só se forem lidas antes, com lupa. Mas, na casa humilde onde mora, ele continua escrevendo suas histórias. Primeiro à mão e depois no computador (prêmio que o pai ganhou num festival de música e que trouxe enorme alegria à família). No quarto que divide com os quatro irmãos, o mirrado escritor sonha com novas conquistas. Emociona-se com suas novas obras. “Tô escrevendo agora Entre Deus e o diabo, é um livro que mostra as distorções de pensamento que existem na Bíblia”, adianta. Pelo visto, mais uma polêmica à vista.

Romper barreiras

Devana Babu revela que quer fazer música como hobby. E jornalismo como profissão. “Quero ser repórter, contar histórias, escrever, questionar...” Sobre São Sebastião, a certeza: “Tem salvação, sim”. Como? O futuro repórter responde: “Com arte, cultura e consciência. Consciência, aliás, é uma questão de hábito. As pessoas têm que se habituar a ter consciência de onde vivem e o que podem fazer para mudar a realidade”. E felicidade, existe? “É utopia achar que seremos sempre felizes. É um estado, um momento...” Família? “A minha fortaleza...”

E assim vive e pensa o menino de 14 anos de São Sebastião. É moleque, inquieto, irreverente e profundamente inteligente. Quer romper barreiras, alterar caminhos, jogar na cara e lutar contra preconceitos, olhar nos olhos de quem o enxerga. Quer sobretudo contar suas histórias. “Quem sou eu?” Ele pára, observa o interlocutor e responde, com sinceridade de um Devana Babu: “Ah, véi, é difícil alguém se definir. Eu não sei exatamente o que sou, não... Um dia ainda vou descobrir...” É, caro leitor, ele é mesmo Devana Babu. E seja lá o que isso possa realmente significar.


O QUE ELE DIZ

Sobre o livro Esdrúxulo e a cidade de São Sebastião:

“No momento em que eu, Paulo Sérgio Jr., vulgo Devana Babu, escrevo esse texto, conto 13 anos de idade, e Luís Paulo, vulgo Próton, o desenhista, tem 15 anos. Em plena aula de inglês, observando tolos os ataques de histeria de minha professora, um misto de idéias, sentimentos e memórias me acometeu, condensando-se e materializando-se como O Esdrúxulo. O texto é ambientado na cidade de São Sebastião, às margens das Asas e dos Lagos, sem lazer, sem cinema, sem clube, sem teatro e sem salvação. Um gueto em que os sonhos dos jovens convergem sempre para a exploração do corpo, como modelos que nunca desfilarão em Paris, ou futebolistas que nunca jogarão no Real Madrid, enquanto a vida dos adultos converge para a servidão. Um vale em que aos fins de semana o fluxo e a população aumentam, porque os copeiros, mordomos, garçons, cozinheiras, faxineiras, empregadas, babás (e toda sorte de denominações de criados) estão voltando da residência dos patrões no Lago Sul. E não podendo manter um lazer lá fora, posto que esse é feito para o consumo burguês, retornam para seus lares apenas programados para descansar (e nem isso para satisfação pessoal, apenas para estar pronto para retomar a jornada de trabalho na segunda-feira). Essa imobilidade social, essa passividade, essa aura de ignorância, essa redoma de submissão, não apenas reproduzida no colégio, mas presente na cidade, associada a um mundo pessoal, é que deram o tom do texto.”

Sobre a escola, escrito no jornal A Gazeta dos Oprimidos:

“Costumo dizer que o colegial é uma creche para adolescentes. Os garotos vão para lá por um período, fingem que aprendem, seus professores fingem que têm algum interesse no aprendizado de seus alunos e o governo finge que oferece educação a seus futuros votantes. E tenho mais a dizer: boa parte da parte relevante de meu conhecimento provém de meios alheios à escola. O que vejo são milhões de fórmulas de Física das quais eu e milhões de alunos não usaremos sequer um radiano em nossas vidas futuras...”

Fonte: Correio Braziliense, 4 de novembro de 2005, Cidades, p. 30.

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