Dois Fuds, por favor!



Por estarmos vivendo na era da informática, das viagens a marte, das clonagens dos vacuns dos caninos e (isso é confidencial) dos humanos, temos nos esquecido com freqüência das nossas origens. Exemplo: há pouco mais de duas décadas e meia, os tijorroceiros - que é um termo acadêmico recentemente criado por esse injustiçado intelectual que há muito vive mendigando uma das duas cadeiras na ALRL (ACADEMIA DE LETRAS RADICAIS LIVRES) para assim conseguir a imortalidade e o direito de tomar o famoso chá de erva cidreira adoçado com rapadura que dizem ser uma delicia além de ter efeitos temperapêuticos - ou será terapêuticos? - Para designar o oleiro fabricante de tijolo e o roceiro que aqui plantava milho, feijão e algumas hortaliças, em suma aquele tipo imortalizado pelo mazzaropi. O oleiro e o roceiro tinham particularidades comuns, migravam da roça pra olaria e vice-versa isso de acordo com as conveniências e da influencia da lua no perfil psíquico e físico, o psíquico era às vezes induzido por pequenos exageros etílicos, por paixões recolhidas, não realizadas e raramente por corneação. Já o fator físico além da influência lunar era terminantemente ocasionado pela dureza da batalha diária pelo sagrado arroz com feijão de cada dia, então para evitar a futura moderníssima L.E.R. nós invariavelmente fazíamos essa permuta de afazeres. Comercializávamos fraternalmente uns capados, uns burros de carroças, umas éguas reprodutoras e de sela (que alguns chegavam a barranquear) permutávamos ainda um rádio das marcas motorádio ou vansart por uma bicicleta os dois por uma radiola e os três mais uns tijolos por um fusca ano 68, sendo essa operação mais vultosa reservada para os abastados. Comíamos pão estocado, que comprávamos aos sacos no Núcleo Bandeirante e guardávamos em latas de 18 litros, hermeticamente fechada com o propósito de mantê-los conservados. Naquele tempo o tijolo esse artesanato a base de argila água era nossa principal moeda de troca. Ah! Sim senhores, o tijolo estava para nós como estava o dólar para o resto do mundo! Por que todas as transações eram cotadas pelo preço do tijolo, vendíamos, comprávamos, trocávamos tendo como referencia o preço do tijolo que oscilava de acordo com a velha lei de oferta e procura que rege os meandros do mercado.
Assim vivíamos nós, os pais de família procriando, amoitando e protegendo as filhas com o zelo de pastores de ovelhas, os rapazes uns bem intencionados tentando ganhar as graças dos pais das moças e os outros concentrando os esforços em conquistar diretamente as mocinhas em questão. Os conquistadores de sogro se apresentavam sempre como sujeitos sérios e trabalhadores, já os outros procuravam mostrar diretamente para os brotos (hoje isso tem um entonação ridícula) qualidades especiais como tocar viola, ter um pouco de grana (esses eram raros), ser bom de bola etc. Já eu -sem querer me gabar, porque entre as minhas varias qualidades está a modéstia - cultivava um perfil misto, com exceção da grana. É amigos, não tinha como fingir ter dinheiro. Às vezes ficávamos muito tempo sem irmos até a cidade, que para nós queria dizer Núcleo Bandeirante, mas nesse caso e só nesse caso foi a exceção. No final da década de 70 surgiu uma sorveteria na avenida W3 com a logomarca FÔÔDS, que, eu penso, tinha a pretensão de se transformar numa rede destas que monopolizam o mercado dado o grande investimento feito em propaganda no radio e na televisão, que pasmem! Já havia estendido o seu sinal até aqui, mas só funcionava à bateria e à gerador diesel. Pois bem, dois amigos meus, um dos quais ainda mora e é figura influente na cidade, passaram uns dois meses trabalhado e economizando com intenção de fazer uma gastança em auto estilo na cidade. Ajuntaram o dinheiro e no fim de semana azado colocaram o traje domingueiro; calça US TOP, camisa quadriculada e kichute preto, partiram para o plano piloto com escala pelo Núcleo Bandeirante, é claro! Onde comeram PASTEL, tomaram MIRINDA, passearam no mercado, comeram mais PASTEL agora com BARÉ, jogaram sinuca, “bicaram as cocotas” meio de soslaio e depois do meio dia partiram pro plano piloto para W3 SUL. Desapiaram do ônibus da Viplan na QD 414 e foram subindo e olhando vitrines, afinal não há nada mais deslumbrante para um bom capiau do que olhar as vitrines comerciais da cidade grande, ver a própria imagem espelhada, enquanto finge observar o interior da loja. Nessa andança, foram dar em frente à sorveteria FÔÔDS, onde um deles, apesar de estar com o bucho entupido de PASTEL, MIRINDA e BARÉ, ao ver no cartaz em frente da loja a imagem colorida do sorvete, que mesmo em preto e branco tantas vezes vira na televisão e lhe dera água na boca, não resistiu, adentrou na sorveteria acompanhado de seu amigo, ignorando os filhos e filhas da burguesia presente, parou diante do atendente, inclinou o quadril um pouco pra esquerda enquanto introduzia o polegar esquerdo no cós da calça US TOP, sacava a carteira do bolso direito e dizia num tom quase de intimação ao atendente:
- ME DÊ DOIS FÓÓDS DESSE AÍ RAPAIZ!
Todos os rostos presentes se voltaram na direção dos meus heróis, com expressões mistas de indignação, espanto e já imediatamente de chacota, essa ultima da parte de algum inconseqüente, porque da maneira que foi expressada num lugar publico, a palavra poderia ocasionar prisão ou linchamento, foi quando eles ouviram a correção peremptoria carregada de reprimenda por parte do balconista.
-FÓÓDS NÃO RAPAZ, É FÔÔDS, PRONUCIA-SE FUUDS!
E o nosso herói sem perder as estribeiras arrematou.

- Que seje, me de dois bichos desse ai.

Recebeu das mãos do atendente os seus dois F... Os dois sorvetes, enquanto, meio atrapalhado, pagava, recebia o troco, passava um dos F... Sorvetes pro amigo para saírem já devorando os F... Os sorvetes, que talvez pela consciência tardia do vexame tenha perdido parte do sabor. Já a sorveteria, bem... a sorveteria faliu ou mudou de nome.


* Edvair Ribeiro é crônista e tem uma cadeira cativa na ALRL, mas esqueceram de avisar pra ele. dizam as más linguas que ele ja trbalhou no seriado Um Maluco No Pedaço, interpretando mordomo inglês Jefrey.

d.b., co-editor pentelho e faxineiro da ALRL

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