Antologia poética de Paulo Dagomé - Parte 4 de 7

linda dama dos cabelos de fuligem


flor insana dos espaços do planalto

traz alívio ao meu pensamento virgem

crava o escopo minha língua no cobalto



mesmo inédita indevassável e crua

bela dama das olheiras de carlitos

vem cavalga-me longe da estepe fétida

vem pilota-me no espaço não restrito



bela lady teu nariz são sinagogas

torre límpida cortada no horizonte

com os espíritos da noite dialogas

mini-luas tua bunda minha fonte



que jazida de estrelas teu discurso

vexatória é a vitória sobre o fraco

se sucumbo então oh que nó górdio

mas teu beijo recupera-me a coragem



***



o pródigo

capítulo hum

perdão mamãe eu gastei todo o dinheiro



***



o vento no ouro dos cabelos

da moça de sol e swing

e eu perguntando ao meu id

idiotices e coisas



crimes na noite sangrenta

e a moça seca os cabelos

ou descolore os pêlos

na pura prata da pele



mais de mil mortos na noite

mais de mil noites insones

eu olho a moça de longe

eu um monge sem mosteiro



e a moça seca os cabelos

e a moça pinta-se ao espelho

e a moça é linda iludida

atrás do batom vermelho



agora Bloch ou é rímel

e eu penso na ilha de cuba

pegou da meia em meio

a um devaneio meu sobre Jung



agora krista na axila

e monange e avon

eu penso no haiti com anseio

vestido preto e crayon



agora pronto está pronta

foram três quartos de hora

as minas de diana estouram

a moça está pondo o brinco



***



minha amada definitiva qual a cor dos teus cabelos?

quando vou tê-los

entre os dedos

e que choupana ou castelo

te abriga do frio quando é noite

e te protege do calor quando o sol se faz a pino?



menino

das ruas mais pobres da bahia

eu ia

sacrificar minha vida

pela tua vida

se tu assim ordenara

senhora dona do meu querer e opinião

o meu amor não arrefece

desce

ou poucochinho do teu andor e toca com teus dedos

nos dedos

da minha mão que por ti teço

no tear da folha em branco teu louvor e como um selo

eu o gravo a ferro e fogo na memória dos meus pêlos

durante um tempo tão grande que a eternidade recolheu-se



envergonhada



minha amada definitiva

se eu conhecesse a estrada

que leva à tua aldeia

tua vila tua taba

eu largava meu emprego minha mãe

e esta casa

e esta casa

e esta casa



***



médio-e-ocre

o poeta

quase poeta

quasímodo

quase alça vôo

mas pesa

não pesa tanto

a ponto

de permanecer

na terra

fica então nestes estreitos

não sobe ao céu condoreiro

nem verme desce ao torrão

quase poesia

a poesia

estica em vão o pescoço

espicha inutil-mente

o olhar dolente indolente

pensa que vê nada vê

quase cacimba

água turva

curva teu crânio ser-vil

cala teu lábio selado

vegetação do cerrado

tosca qual cristo em mário

cravo meu olhar no espaço

não passo desse

compasso

em que me vou ritornello

anelo sair do sonho

mas vivo só desse anelo



***



bela é a tua alma moral

mais bela é a alma da cortesã

belo é o seu lixo cultural

mais belo o erro léxico da mão sã



belo é o teu discurso político

mais belo o sex-appeal da prostituta

belo é o teu non-sense apocalíptico

mais belo o temor religioso de uma puta



bela é a tua verve ética

mais bela é a ignorância da teúda

bela é a tua entonação fonética

mais belo o sotaque com que a mundana me saúda



belo é o teu olhar aristocrático

mais belo o cílio negro da ordinária

belo é o teu sorriso prático

mais belo o sorriso democrático da perdulária



belo é o teu porte altaneiro

mais belo é o batom da boca da bandida

belo é o teu aparte zombeteiro

mais belo o nome feio na boca da mulher da vida



***



meu medo de você na densa noite escura

dorme neném que a cuca vem pegar

meu medo da sua face dura

esculpida com vigor no mármore de carrara

eu pego as criancinhas para fazer mingau

meu medo dos seus olhos sobre a minha travessura

meu medo da tua dura ternura

meu medo da tua verve pura

boi boi boi boi boi da cara preta

meu medo do teu olho sobre a minha mão impura



e minha mão furtiva fugindo à captura

forjando a ruptura

que nunca se condensa

enquanto a bruxa má está analisando a espessura

da falange de joãozinho

e o gigante e o fantasma e a criatura

e o pirata à procura

e a tortura

do meu sono atormentado pela culpa que supura

da minha paz caricatura

do monstro que a moça loura representa quando jura

que não me fará mal algum

e até talvez possua a cura



pra amainar a rigidez

da minha picadura

mas eu só penso em tua fúria

só vejo a tua amargura

a romper minha armadura

e eu como como um tolo a maçã envenenada

da tua lisura



***



ave rara

em te conhecendo

quem te não amara?



alma clara

quem te encontrando

o mais não detestara?



***



marcado está meu coração ó mestre

como escapar à dor...

mas se esta mesma dor me faz ser forte

quero ser super

ser superior



deserto está meu coração ó mestre

sem rei e sem senhor...

meu coração acha que basta-se a si

silêncio e solidão

ao meu redor



errante vai meu coração ó mestre

sem porto e sem navio

não tenho âncora... nem vento... nem vela...

meu coração é quase

um cão vadio



o caos põe ordem no meu coração ó mestre

nada me seduziu

gasta a palavra diz um quase nada

meu nome é

desvario



***



agora a alma vêm-me a boca como vômito

agora eu penso um pouco esta sandice

agora olho os sapatos de esta moça

enfileirados sobre o chão suas mentiras



depois reprimo um tanto o choro baixo

depois de um corredor vem vários outros

depois de cada esquina e cada beco

mais becos e esquinas tão somente



e após passo a odiar com veemência

ridículo ponteiro de segundos

sorvendo o tempo ausente gota a gota

martela minha mente e é madrugada



porém se é tardezinha é a mesma lava

que me consome se a manhã é fria

ou se a manhã é quente ou se uma brasa

me queima o coração neste sem tempo



depois que o sono vence-me a vigília

paredes e telhados quais borrão

a mente empedernida é mancha vária

no outro dia ainda não estão são

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