Cia das Artes Trinquenta e o espetáculo "FRAN BUAR LAND"

Por: Isaac Mendes*
Cia teatral Trinquenta
Foto: Rose Almeida
Jovens da cidade de São Sebastião-DF estrearam nesta segunda-feira (14.12) o espetáculo “FRAN BUAR LAND”, no Teatro Mapati e nesta quinta-feira (17.12) reapresentaram no auditório do CED São Francisco (CHICÃO).
Esse espetáculo é fruto da parceria entre a Associação Ludocriarte e a Secretaria de Estado de Políticas para Crianças e Adolescentes firmada a partir do convênio 06/2015, financiado pelo Fundo da Criança e do Adolescente via Conselho de Direitos da Criança e do adolescente/CDCA-DF.
A Ludocriarte compõe a Rede Conexão Jovem que nasceu a partir da parceria entre sete instituições que promovem diversificadas ações na busca pela garantia de direitos de crianças e adolescentes. Assim, passaram a agir paralelamente em diferentes Regiões Administrativas do DF na promoção e no fortalecimento do protagonismo juvenil, cidadania e profissionalização.
Em São Sebastião cerca de 80 adolescentes participaram das oficinas formativas semanais “Jovens Talentos”: vídeo, informática e comunicação, teatro, movimento corporal, expressão e participação. Das oficinas de teatro nasceu a Cia de Artes TRINQUENTA e ao longo dos 8 meses de atividades foram produzidos curtas, esquetes, recitais e o espetáculo FRAN BUAR LAND, escrito por Julio Cesar Cavalcante, 31.
Inspirada na obra de Chico Buarque de Hollanda, como o próprio nome sugere (FRANcisco BUARque de hoLANDa), a peça é recheada do início ao fim de canções consideradas verdadeiros hinos da MPB,  narra a história de Beatriz, uma jovem garota que acorda em um mundo desconhecido e repleto de personagens saídos das canções de Chico que a ajudam a descobrir quem ela é, o que faz ali e como voltar para  seu mundo.
O mundo de Fran Buar Land nos remete ao país das maravilhas e a saga de Alice, mas tem suas peculiaridades. A ausência do cenário instiga o espectador a usar a imaginação e abstrair o mundo onírico das terras de Fran Buar. Outro aspecto que chamou a atenção foi, sem sombra de dúvida, a harmônica qualidade  da coesão do elenco. Os longos diálogos estabelecidos pelos atores fluem naturalmente com entonação e impostação de voz adequada aos diferentes momentos e sentimentos.
Beatriz chega a Fran Buar Land
Foto; Isaac Mendes
A riqueza das personagens também é outro fator que devemos levar em consideração. A começar pela bela e jovem Beatriz, a protagonista interpretada pela atriz Sabrina, que mescla, com bastante desenvoltura, doçura e força, sensibilidade e determinação. Beatriz é acompanhada por duas outras personagens, Nina e Pedro. Nina, interpretada pela atriz Anna Lyssa, 16, é uma artista alcoólatra, que tem pavor da palavra palhaço, porém muito destemida. Segundo Anna Lyssa, a Nina “não tem nada a ver comigo, a não ser a bipolaridade. Ela é bem diferente de mim, ela é bem maior, ela é alcoólatra...”, mesmo assim Anna Lyssa não achou tão difícil compor sua personagem e conta que ter feito parte do projeto, acrescenta em sua vida “além de amizades, força. Uma construção mais profissional... da gente saber como a gente se porta diante de algumas situações, às vezes a gente se pega pensando em como os personagens agiriam...”
Beatriz encontra a Bailarina
Foto: Isaac Mendes
Pedro, interpretado pelo ator Lucas Pereira, 17, é o parceiro covarde de Nina e tem fobia da palavra Coulrofobia (medo de palhaços), mas aceitou a missão de levar Beatriz até a fronteira de Fran Buar Land. Lucas conta que “A construção [da personagem] foi meio difícil, pois eu sou meio tímido e o personagem é mais desenvolto, mas fluiu bem”.
Essas duas personagens superam suas limitações e evidenciam suas qualidades à medida que a trama avança e as demais personagens se revelam: A Bailarina, a bailarininha e as bailarinas, o Cowboy, o caçador, Terezinha, Carolina, as crianças do Brejo da Cruz, os milicos, o Juíz e seu namorado (serviçal), os promotores e os idosos.
O serviçal, interpretado pelo ator Gabriel Muniz
Foto; Isaac Mendes
Uma grande produção com duração de cerca de 100 minutos, 30 atores e atrizes em cena e mais meia dúzia de assistentes. Se aventurar por esse terreno seria em tese uma tarefa ingrata para qualquer ator ou atriz, porém os jovens da Cia de Artes Trinquenta cumpriram muito bem a missão demonstrando bastante profissionalismo. Beatryz Valim, 12, conta que é o seu primeiro trabalho com o teatro, “eu nunca tinha participado, aí veio a oportunidade e eu acabei pegando o papel”. Beatryz contou também sobre como foi o processo de construção da sua personagem “eu achei muito legal porque a vitoria é muito diferente de mim então eu tive que trabalhar bastante os meus sentimentos, eu tive que me transformar. O que foi mais difícil foi a mudança dos sentimentos.”
Execução moradores do Brejo da Cruz
Foto: Rose Almeida
Há quem saia de FRAN BUAR LAND sem saber o que pensar, na expectativa talvez de que uma voz troveje dos céus explicando o veredito, ou que pelo menos o vizinho ao lado faça algum comentário. Essa inquietação é conhecida dos que leram o Conto do Sábio Chinês, Alice no país das maravilhas e o Mundo de Sofia, ou assistiram Vanilla Sky ou a Caverna do Dragão. Para os que não o fizeram, talvez seja possível encontrar nessas obras algum sinal para responder as filosóficas questões e compreender as reflexões existencialistas que se interpõem entre personagens e espectadores.

*Isaac Mendes é pedagogo, pesquisador, músico, ator, conselheiro tutelar e ativista cultural do movimento cultural supernova.

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