MARGINAL, FINALMENTE Ou: O primeiro 'bacu' a gente nunca esquece! Por Luiz Próton


Minha excelentíssima  mãezinha sempre dizia: “tira esse chapéu, menino, você está parecendo um marginal!”. O que ela não sabe, porém, é que eu sou um marginal (culto e legal, é verdade), pelo fato de ser excluído pela sociedade burguesa. Porém, em verdade vos digo: a preocupação de minha santa e imaculada mãezinha (que deus a tenha) era não a minha “suposta” “aparência” de “marginal”, mas com o risco efetivo de seu amado filho – minha educadíssima pessoa – sofrer severas agressões de certos indivíduos de farda e coturno que tecnicamente nos devem segurança, que cultuam uma ação chamada por mim e pelos outros marginais de “O BACU”. Calma, gentes, não abandonem ainda este folhetim. O nome realmente estranho, mas não se tratam de agressões sexuais.
De fato, sou um garoto muito desobediente, como todos os outros, e usei o “chapeuzinho de traficante”, como dizia minha idolatrada mãezinha (que deus a tenha). Fui com ele até o campo do bosque, para ensaiar uma peça de teatro (sabe, pra fazer o que se chama de “peça de colégio”, pecinhas feitas sem nexo, sem graça, com os integrantes falando o texto de forma robótica, já que, no final, os professores de qualquer jeito vão nos dar a nota, por que nós somos “marginais” e não precisamos fazer nada direito, o importante é dizer que faz) com o meu grupo de trabalho do colégio, e vocês bem sabem como é a matinha do bosque, só tem marginal (só que a maioria não é culta nem legal). Enquanto ensaiávamos num canto do campo, um dos membros de meu grupo usava o meu chapéu para interpretar um marginal (um marginal pegando um chapéu de marginal com um marginal para interpretar um marginal... era melhor ele continuar sendo ele mesmo pra eu não Ter que gastar a tinta da impressora contando isso). Nesse ínterim, eu e os outros notamos que três garotos desprenderam-se de seus aglomerados humanos, e que esses três estavam fumando!?!?!?!?!... Bem, fumavam qualquer coisa. E NEM NOS OFERECERAM, EGOÍSTAS!?!?!?!?
Pois em certo momento, esses três garotos pegaram um embalo disparado, como se apostassem uma corrida,. E nós o observávamos rindo, como lesos: não era corrida coisa nenhuma. Era a polícia patrulhando o campo. Pois os corredores sumiram. Os policiais vieram em nossa direção e nós, num ímpeto inocente, apontamos para a direção em que foram os marginais incultos e legais. Mas a polícia não os perseguiu, não os percebeu sequer, e nem ao menos queriam informações nossas. Ao invés disso, a polícia estava era preocupada e desconfiada conosco, os “marginais”, e não com os fumantes. Então, minha santa boca disse, ou melhor, proferiu as palavras que desencadeariam na nossa abençoada maldição:
- Leandro, tira o chapéu, aí vem os home.
E arrematei:
- Ó, todo mundo com cara de bonzinho. Apenas sorriam e acenem! Sorriam e acenem!
O infeliz ato de tirar o chapéu e escondê-lo fez com que os olhos dos policiais se arregalassem ainda mais de desconfiança, ao ponto de eles ficarem apontando daquele modo irritante com os cacetetes. Enquanto faziam isso, gritavam com sua voz fingidamente grave:
- Ei, moleques, mão na cabeça!
Eles, por polidez e espirito de civilidade, podiam acrescentar duas palavrinhas: “por” e” favor”.
Mas eles eram da polícia militar e por isso só tinham espirito de militaridade, e, portanto, não acrescentaram. Mas nós obedecemos mesmo assim, pois, apesar do que minha puríssima mãezinha (que deus a tenha) me ensinou, deve-se considerar que eles eram muito mais fortes do que nós.
O Pablo ria como um retardado, mas após um suave tapinha, a piada como que perdeu a graça para ele. Eu não entendi muito bem, mas ele saiu jurando vingança àqueles funkeiros que cantam aquela musiquinha:
- Dói um tapinha não dói...
O Leandro gritava entredentes, gemendo como uma menininha:
- Por favor, senhor...
Minhas pernas ficaram bambas. Meu olhar denunciava o medo. E minha mente girava numa explosão de alegria, pois até então eu nunca havia sido... Errrrrrrrr... BACUADO!!! Até então não havia vivido esse momento sublime de violência e carinho, de prazer e de dor, aquilo que iguala tudo que é marginal num só rebanho de condenados... Pois por mais doloroso e insensato que seja, esse é o rito de iniciação sem o qual nenhum marginal pode se garantir digno e genuíno. Assim como os muçulmanos tem que ir um dia à Meca, assim como todo cristão tem que ser batizado, assim como os membros da ordem dos templários tem de cuspir na cruz, todo marginal, ao menos uma vez na vida, tem que ser bacuado. Agora sim não me falta mais nada:
Oficialmente, sou um marginal.
Finalmente!!

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