Pinceladas sobre uma sociedade alternativa

Ultimamente, tenho trocado mensagens com o meu mais novo colega (pós-?) altermundista (valei-me, Bernard Cassen!), Ocelo Mendonça, do Projeto Vila/Cidade RBE (Economia Baseada em Recursos).

Segundo a descrição do grupo RBE, do qual também faço parte, na rede Ning (http://ecovillarbe.ning.com/), trata-se de “um projeto de implantação de uma cidade modelo RBE auto-sustentável onde a sua estrutura facilmente replicável possa ser alternativa de vida para aqueles que hoje trabalham subservientes às leis de mercado do sistema monetário. O foco do grupo é desenvolver tecnologias de ponta com o uso da ciência para a substituição tecnológica do trabalho humano, onde o sistema de troca de mercado seja substituído pela produção e distribuição automatizada de recursos. Os conceitos como RBE e substituição tecnológica se encontram nos grupos de Economia. Cada grupo busca contribuir com uma proposta de sustentabilidade total que possa ser mantida fora de um sistema monetário, criando alternativas para momentos de crises econômicas globais. Novas tecnologias, espaço para pesquisadores e testes são muito bem vindos. A busca pelos conhecimentos científicos e técnicos de ponta será usado para montar uma cidade modelo que será padrão para uma melhor alternativa de vida". (Sem revisão)

Destaco um trecho de sua última provocação:

“Mas nós que moramos na vila, sabemos que nossa qualidade de vida não estará apenas nos artigos de tecnologia à nossa disposição, ou nos alimento orgânicos, na água sem flúor, na assistência médica da melhor qualidade, ou nas nossas excelentes escolas, ou nas áreas de lazer como em um clube com piscinas, quadras etc... Nossa qualidade de vida estará no modelo de justiça social que perseguiremos. Estará na busca por um modelo replicável de um sistema mais humano, mais igualitário, mais justo, mais integrado à natureza. A verdade dura é que, de fora, seremos vistos como uma empresa, uma fazenda, ou um condomínio de classe média alta (Arghhhh de novo!). Como disse acima, nossa "empresa" precisará de "lucro" para se desenvolver. Nem tanto para o alimento, mas para adquirir todo tipo de coisa que, a princípio, não será produzido pela comunidade.” (Sem revisão)

Pois bem, car@ leitor/@ instigado, aí está o grande xis da questão; o "nó górdio" (conheça a lição dessa interessante mitologia em http://pt.wikipedia.org/wiki/N%C3%B3_g%C3%B3rdio).

Na época de transição, temos de desenvolver uma atividade econômica, em moldes cooperativistas e autogestionários, que favoreça a aquisição de meios de produção eficientes e duráveis, pilares da autossustentabilidade. E, mesmo sem abolir o dinheiro, pelo menos reduzir significativamente a sua recorrência, mediante redes de comércio justo e solidário

Precisamos, na verdade, distinguir o que é contingente do necessário para a nossa reprodução/metabolismo social. Aliás, o ponto de partida é justamente esse: quais são os elementos de uma "vida boa" ou, nos termos de Ocelo, "conforto tecnológico"? Não confundamos com uma "vida melhor", baseada no consumismo. Temos de escoimar o que é necessidade natural daquela artificialmente induzida pelos mecanismos mercadológicos de superestimulação de produtos supérfluos.

Não é tanto o egoísmo mas a insaciabilidade o grande mal da humanidade. Com o advento da ciência, o pensamento hegemônico preconiza que não há mais limites para o ser humano. Perdemos a noção do sagrado - lato sensu. Assim, em vez de seguirmos o exemplo das tribos milenares que sobrevivem com apenas o suficiente, pacificamente, e coexistindo com a natureza, tendemos, mesmo com intenções aparentemente nobres e dignificantes, a explorá-la cada vez mais, sob novos imperativos de "qualidade de vida". Considero, assim, que a Antropologia tem mais a nos dizer do que a Robótica ou a Nanotecnologia.

Acredito, ademais, que o âmago mesmo do problema não é a oposição entre esquerda e direita ou capitalismo e socialismo/comunismo ou até sistema monetário ou RBE. Ambas são faces da mesma moeda, epifenômenos superestruturais de uma infraestrutura chamada tecnoburocracia - a religião das religiões, fundada na crença cientificista, nosso verdadeiro alvo.

Creio que, mais do que Jacque Fresco ou qualquer outro profeta da sociedade dos especialistas/peritos, tivemos em Paul Feyerabend um dos maiores iconoclastas contemporâneos, que, em "Contra o Método" (http://www.marxists.org/reference/subject/philosophy/works/ge/feyerabe.htm), desmontou a mitologia que envolve o cientificismo - a mais poderosa das formas de extremismo/fanatismo em voga. A proposta? "Anarquia epistemológica".

Feyerabend (1924-1994) foi um dos filósofos da ciência que se preocuparam com um tipo de discurso que a absolutiza. Concordo que é um recurso útil sim, mas não o único e exclusivo. Reificá-la depõe contra o seu próprio valor - que, convenhamos, é limitado, tomado isoladamente, assim como os outros conhecimentos. E o cientificismo é, indubitavelmente, uma forma de totalitarismo.

Não se trata de excluir ou melhorar o método científico. É ter a consciência de que esse campo cognitivo, assim como as outras formas de conhecimento - filosófico e religioso - não açambarcam, por si sós, todos os domínios do ser humano.

Em suma, trata-se de exaltar o pluralismo, sem desmerecer qualquer outra maneira de apreensão da realidade.

Em breve, aqui na Supernovas!, desdobrarei isso, calcado nos prolíficos achados da literatura contracultural.






Daniel Pereira da Silva (by Chibi)
Mutatis mutandis

SuperNovas

2 comentários:

  1. Assino embaixo, Daniel. Quando li Contra o Método, lá pelos idos de 1999, foi um puxão de tapete fabuloso! Eu, formado na UFRGS, uma Universidade altamente cientificista, me dando conta - como nunca antes - da relatividade do meu saber, da minha "verdade".

    Parabéns pelo seu ponto de vista. Acho que precisamos trabalhar em uma síntese dos autores que citaste e de mais alguns. Dá uma olhada, ao final do documento a seguir, nas referências bibliográficas e citações: http://www.coolmeia.org/pdf/Coolmeia-v1.0.pdf

    Vamos falando.

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  2. Parabéns pelo texto, Daniel! Mais uma vez! Abraço.

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