Guitarra do Destino


 
Estávamos reunidos em frente à casa do Rocket, por volta das três horas da tarde, no amplo canteiro que há entre as duas pistas duplicadas, usada pelos caminhoneiros das madereiras e lojas de construção daquela região como estacionamento. Rocket morava de aluguel em cima de uma dessas madereiras, e a sombra da única árvore que havia ali, aliada a alguns meio-fios ainda não colocados era o ambiente perfeito para nossos propósitos: tirar músicas, ensaiar músicas, apresentar composições e compor para a banda.
Decidimos fazer esse ensaio e essa prévia acústica antes de entrarmos num estúdio ou montar equipamentos pra ensaiar pra valer. Nada mais justo! Quando montamos a banda, não tínhamos idéia do que queríamos tocar. Só sabíamos que tínhamos em mãos a oportunidade de tirar um som. "não sei o que dizer, não sei o que pensar. Só quero alguma coisa pra tocar!"
Pensamos em algumas canções que gostávamos em comum. Poucas. Jack Black e Mat mostraram um arranjo muito bom que haviam feito juntos. Eu passei para os demais garotos o riff SuperPesado que havia mostrado pro JB no dia anterior. Tinha prometido trazer a letra, mas como não a achei, misturei minha memória fraca com minha imaginação e a transcrevi no papel ali mesmo.
Depois de malhar muito a música e detonar um Cerradinho de laranja, resolvemos encerrar o ensaio e dar uma volta.
- Galera, vamos fazer um pacto!
- Rum.
- Recapitulando a história: O Metallica, quando acabou, acabou por causa de garotas. O guns'n'roses teve desentendimentos por causa de garotas. O Sepultura se separou por causa de garotas. Porra, até os Beatles! Proponho que prometamos, aqui  e agora, que nunca colocaremos garotas no meio da banda! Aconteça o que acontecer, nada de garotas no meio da banda. Quem está dentro?
Fiz sinal de chifre com os punhos fechados e o indicador e mindinho sobressalentes. Jack Black encostou seu mindinho no meu indicador, os outros  garotos fizeram o mesmo e então, com as cinco mãos em chifre, fechamos um círculo e celamos o pacto, repetindo juntos as palavras da jura.
O clima das cinco da tarde na cidade incita uma morga espantosa nos espíritos humanos, e decidimos parar na pracinha.
- Porra, a gente precisa comprar nossos instrumentos.
- Nós já temos um baixo. Dois, aliás. Bateria a gente tem a do estúdio, mas precisamos de pratos. E você pode pegar a Tagima da sua Ex, Jack.
- Jamais!
Na pista, adiante, vemos dois vultos vestidos de negro se aproximando: Neo, o possuído, e outro rapaz roqueiro com um black power moicano, cujo nome nunca tive a curiosidade de perguntar.
- Não sabe quem tá vendendo uma guitarra não?
- E aquela guitarra que aquele bicho ia te vender?
- Que bicho?
- Aquele lá da loja de instrumentos.
A face de Jack então se iluminou como se ele tivesse se lembrado da coisa mais importante da vida dele.
- DE ROCHA VÉI! O BICHO FALOU QUE IA ME VENDER A GUITARRA BARATINHO! CARALHO! CARALHO! ALELUIA, PORRA!
O cara em questão se chamava Mago, e trabalhava na Musical Slide. Skatista, Blueseiro, tocou em algumas bandas até que entrou na igreja e o resto é clássico. Estava se desfazendo da guitarra.
Decidimo-nos imediatamente: Vamos para a Musical Slide!
Montamos em nossos Skates (o meu era emprestado do jhon) e fomos rumo ao centro da cidade.
Chegando lá, constatamos porque o cara se chamava mago: A loja tinha uma fachada marrom em forma de arco, que se abria para as laterais, quase como a porta de um templo. Entramos lá e não o encontramos. Gritamos seu nome e ele responde soturno, repentino, por trás de nós:
- E aí galera.
Sim. Ele aparece do nada, como o mestre dos magos, e é baixinho como tal.
- Viemos ver o lance daquela guitarra que você ia vender.
- Pô cara... mas o problema é que eu já prometi ela pra um cara! Ele falou que vinha buscar ela sexta feira.
- Ó não! E por quanto você a venderia?
- 180 $.
- !
Rápida deliberação.
- Cara, vende ela pra nós!
- Eu já prometi pro outro cara. Eu estou precisando da grana. Se vocês aparecerem com a grana até quinta, a guitarra é de vocês.
- Então tá. Segure-a. Vamos trazer o dinheiro pra você.
- Fechou, parceiro. Falou.
Saímos à rua com a mente em comichões. Onde diabos cinco vagabundos como nós arranjariam 180 $ até quinta?
- Vocês não tem como conseguir não? A gente junta e..
- Eu mesmo não.
- Nem eu.
- Porra! Onde vamos arranjar essa grana....
- Não sei quanto à vocês, mas eu tenho a moral de arranjar um emprego só por um tempo, tipo uma semana, só pra comprar a guita - disse o Rocket.
- Massa.
Imaginamos Rocket colocando um terninho e uma camisa social e saindo com um currículo debaixo do braço, no dia seguinte. Mas não:
- Então bora.
- Como assim?
- Bora arranjar o emprego, ora. Ali, naquela loja de eletrodomésticos. perfeito. Moça! moça! Como vai? Vocês não estão precisando de alguém pra fazer qualquer coisa ai? Qualquer coisa mesmo. Só por uma semana. Eu faço tudo e daí voces me pagam, que tal?
As moças riram tanto do rocket que eu quase ri tabém. Isso nunca daria certo. Rocket era branco e tinha olhos coloridos, e achava que isso era o suficiente pra conseguir o que quisesse. Não era.
- Cara, vamos jogar umas fichas e pensar!
- Já sei! Podemos arrancar umas granas de uns trouxas na sinuca! Sei lá, uns bebinhos por aí, desses generosos que amolecem o coração com jovens músicos ambiciosos.
Paramos na primeira sinuca que encontramos. Encontramos nossa vítima: um bebinho desses bem ordinários. Que pagou uma coca pra nós e foi tão legal que não tivemos coragem de explorá-lo.
Saímos e demos de cara com um comprador de alumínio. E se catássemos latinha?
Genial! Considerando que o quilo da latinha é 2 $, Só precisávamos juntar... 90 kilos de latinha! Só precisamos de uns qurenta meses pra juntar isso tudo.
Não.
Vamos entregar currículos?
Não.
Vamos atentar a lain lá no SantaFé!
Fomos. Lain era caixa no santa fé e gostávamos de atentá-la, pois era linda. Ficamos, só de sacanagem, empacotando as compras no hypermercado. Mas não conseguimos um tostão, se bem que fizemos muitos amigos. No  outro dia, descobriríamos que a gerente havia colocado todos os rapazes dos supermercado pra empacotar as compras! Pelo menos causamos uma pequena revolução no mercado.
Um carro de som passou perturbando nossa paz e anunciando festividades pagodeiras para o fim de semana.
Ei, vamos nos oferecer para panfletar! Esses caras pagam bem pra ficar distribuindo panfletos!
Corremos por umas duas quadras até conseguir parar o carro. Conversamos com o cara e ele nos mandou ir esperar no fórum.
Fomos. Levamos o maior bolo de nossas vidas profissionais até o momento. Mas em compensação, aquele ambiente burocrático e funcionalista, além da aparião súbita de duas lindas senhoritas com que tinhamos relações e trabalhavam lá me deram memórias e um inpiração:
- Cara... Vou mudar a vida de vocês agora. Tive uma ideia genial. Vou ensiná-los a ganhar dinheiro!
A parte o habitual desdém, os caras me ouviram.
- É o seguinte. Há alguns anos, eu e meu amigo, metade de meu talento, Elétron, publicamos um livretinho que xerocávamos e vendíamos por aí. Era uma mina de ouro. O que vamos fazer é: pedir a nossas solícitas amigas que consigam, com suas influências, uma centena ou duas de xerox dentro do fórum. Depois pegamos as revistas, vamos ao plano piloto e vendemos para os burgueses metidos a cult. Que tal?
Genial. Intimemente, me aplaudiam. As garotas prometeram ver se conseguiam as xerox e trariam no fim da tarde. Era tempo demais para esperar. Queríamos dinheiro e queríamos rápido. Imprimimos uma cópia e demos para as meninas, mas como um plano b (sem que elas sooubessem, é claro).
Então dei outra genial ideia:
- Caras: nós vamos pegar essa singela revista e ir pedir patrocínios nos comércios, especialmente de gente conhecida. Venderemos um espaço publicitário: colocaremos a logo das empresas na capa e saíremos vendendo por aí. Ou distribuindo, tanto faz! Calcule: Se vendermos oito patrocínios por 50 $, já temos 400 $. É mais do que precisamos! Dá até pra comer uma pizza. Com coca-cola!
A ideia foi ovacionada e imediatamente acatada. Fiquei impressionado com a pilha dos garotos. Impressionante.
Fomos à caça: primeiro na empresa do pai do Mat, que tinha uma produtora. Depois de muitas dicas e ideias, ele nos deu os 50 $ e mais um monte de indicações de comercios amigos, e o principal: nomes.
Depois fomos no tio do Negro, que nos deu também 50 $ e mais um monte de telefonemas animadores;
- É só pra ajudar os meninos a comprar os instrumentos. Não, não, não tem valor fixo. Coisa boba, coisa de 100 $, dizia ele, rindo entrementes pra nós, maliciosamente - beleza. Vou mandar eles buscarem; Pronto meninos, consegui mais 100 pra voces. Agora você vão em tal e tal lugar.
Fomos. E em mais outro. E em mais outro. E em vários comerciantes eminentes que conhecíamos, da cultura, da política e da vida.
No fim do dia, tínhamos levantado a quantia necessária!
Estávamos orgulhosos de nós mesmos, e sedentos por mais.
Fizemos as xerox com os logotipos das empresas, guardamos alguns para vender no outro dia e levamos alguns nos patrocinadores.
Voltamos à loja para procurar o mago. Não estava. Onde ele mora?
na rua 66, casa 69.
Um arrepio percorreu nossas espinhas, um arrepio bom de um sentimento mágico. A pouco anoitecera, e a noite estava quente e aventuresca.
Fomos à tal casa. Magooooooo! magooo!
- E aí galera.
- Viemos pegar a guitarra;
- Já arranjaram o dinheiro?!?
- Já!
- Massa!, disse ele, sem disfarçar um certo orgulho de nós.
Entrou. A rua era uma das ruelas bem estreitinhas e escuras que se ramificavam da rua da gamela. Sentamo-nos na calçada de frente. A casa dele tinha um portão baixo, metade de tijolo e metade de grade, com um aspecto bem simples e rústico. Parecia até fotografia de papel de parede de computador.
Ficamos esperando, ansiosos, sentados na calçada. ansiosos.
Eis que o mago surge pela porta, empunhando a guitarra.
Boquiabrimo-nos.
Era a coisa mais linda que já haviamos visto até então.
Uma samick stratocaster, cor de vinho, com o escudo preto, cabo de madeira marrom escura, 24 casas, e curvas perfeitas. Uma dama fatal de vermelho. Lembram-se da palheta do destino, de Tenacious D? Aquela era nossa guitarra do destino. Chamariamo-na assim, dali em diante.
Não sei se o orgulho de ter conseguido isso tão rápido e de forma tão massa ou a própria beleza do momento haviam nos sensibilizado mas, sentados em nossos skates, naquela rua, sob a luz da lua e o barulho das crianças e jovens na ruela, soubemos na hora: todo o esforço havia valido a pena.
E soubemos mais: Nosso pacto estava quebrado. Havíamos acabado de botar uma garota no meio da banda. E estávamos todos apaixonados por ela.

Essa história não acaba por aqui...


Baseada em fatos surreais
(e holográficos)

d.b

7 comentários:

  1. Isso é uma história e tanto...
    Fiquei até imaginando as cenas.
    Um bom texto Devana, vc sabe como usar as palavras e nos envolver com a situação.

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  2. Ótimo texto Devana.
    Observação¹: rua 66, casa 69. 6+6+6+9=27
    O que explica a sorte.
    Observação²: É o primeiro texto teu que não está em courier new.

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  3. Num vou nem falar com quem a mulher cor-de-vinho ficou.
    Branco de olhos coloridos.

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  4. o texto está em American Typewriter, minha fonte favorita. o courier não passa de um paliativo.

    a mulher cor de vinho ficou com o branco de olhos coloridos por um tempo breve. Atualmente ela reside na casa do Mat, no quartinho recluso da sala.

    e obrigado, priscila.

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  5. Já sonhei com essas duas garotas da foto!

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  6. Nunca fui contra o fato de mulheres danificarem bandas. No caso específico dos beatles, o que dá raiva é que Yoko Ono não é exatamente um caso de fecha-quarteirão. Se é pra bagunçar, que seja com uma mulher absolutamente gostosa, absolutamente linda, devânica, por assim dizer.

    Este é um ponto.

    Outro poonto é "boquiabrimo-nos". Sem comentários.

    (MORALZINHA 1) Outro ponto (valei-me, Pe. Vieira), é de natureza gramatical. Vejamos: "Chamariamo-na assim, dali em diante." O correto - Deus me perdoe - seria: "Chamá-la-íamos assim, dali em diante". Isso se chama "moralzinha" fora do contexto. Sou um tio que faz uso de suas prerrogativas moralzinhescas.

    (MORALZINHA 2) Antigamente sua ira era contra as maiúsculas. Hoje, ao que tudo indica, é com os vocativos. Sabe-se que Graciliano abominava adjetivos. Contra quem, Devana, ainda lutarás?

    "Essa história não acaba por aqui..." Deve ser publicada na Rolling Stones.

    Bjs!!

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