Manga

Sakuro, grande amigo, me perdoe por ter estragado sua obra de arte trocando uma típica ormã zakurista por uma manga tão mal feita. E desculpe por ter pegado seu desenho sem permissão. Prometo continuar fazendo isso, mas prometo continuar pedindo desculpas. E onde está o material para sua coluna? em contrapartida: http://www.flickr.com/sakuro  
- Sei que marcamos de nos encontrar às duas pra ensaiar, mas acho que tenho um plano melhor. Hoje a noite vai rolar um sarau, o primeiro que fazemos nesse esquema, que é um sarau contratado por um bar, que acontecerá toda segunda feira. O coletivo está precisando de uma força pra panfletar lá na UnB. Estava pensando de irmos, panfletar e vender os gibis lá. Depois iríamos pro sarau e venderíamos lá. Que acha, Mat?
- Parece bom, mas tenho que ligar pro Jack Black primeiro.
- Ótimo. Faça isso e me retorne.
Às duas horas nos encontramos e tomamos o ônibus rumo à UnB.
Como combinado, Panfletamos, mas não nos animamos a vender nossos gibis autorais. Os estudantes não pareciam muito interessados em nada intelectualmente estimulante. Depois seguimos para o bar onde aconteceria o sarau. Como o intuito do sarau era comercial e estávamos lá mais como funcionários do que como artistas, não tinhamos nenhuma regalia. Nada de comida. Nem de refrigenrante. Sequer uma água de torneira.
Saímos para vender revistas nos bares circundantes. Vendemos algumas, mas não muitas. Poucas mas bem vendidas, diga-se. O movimento estava fraco.
Retornamos ao bar na esperança de comer algo consistente. Com muito esforço, minha mãe juntou algumas cédulas velhas de dois reais e umas moedas, e com a ajuda da mulher do Poeta, compramos uma porção de kibe, que continha dez minúsculos kibes e custava 12,90. Claro que isso não mataria a fome da mulher do poeta, De jack Black, que, diga-se de passagem, tinha muito estômago pra preencher, do mat, do Negro e muito menos a minha.
A essa altura estava começando o show de pagode e não havia mais nada que prendesse quatro roqueiros como nós ali.
- Vamos dar uma volta.
Dar uma volta é uma coisa que inspira, traz idéias e oportunidades.
- Já sei! Vamos pegar umas mangas!
- Pegar onde, moço?
- O que não falta aqui no plano é pé de manga. E eu vi uns carregadinhos!
Encontramos um numa entrequadra a dois blocos do bar onde duas burguesas cults nos deram mole (e ainda compraram as revistas por 10 reais cada uma. E ainda pagaram refri!). Arrancando os ladrilhos da calçada (já havia um buraco de pedras arrancadas), mirávamos os cachos pesados de mangas maduras.
Eventualmente caiam em bandos no meio das folhas secas. Devorávamos as mangas com sofreguidão.
Nos fartamos. Em dado momento, sentei-me na escada da farmácia, enquanto Mat compartihava generosamente as muitas mangas que arrancava comigo. Notei que o Negro estava há horas tentando arrancar uma manga que estava no topo da mangueira. Mas não se apercebera do fato. Resolvi animar as coisas e atiçar a imaginação deles:
- Nossa. Ninguém consegue arrancar aquela manga, hein!
E foi com enorme prazer que notei que os três garotos obececaram-se pela bela manga.
Embora escuro e longe, podíamos ver o quão apetitosa era ela. Grande, vermelha e amarela, formas deslumbrantes. Dezenas de mangas tão boas ou quase tão boas quanto elas caiam no chão aos bolos, mas já não prestávamos atenção nelas. Ignoravamo-na.
Queriamos o impossivel.
Queriamos o mais difícil.
Queríamos o inalcançável.
Sem que os garotos soubessem, me fartava com as mangas deliciosas que caiam no chão, que eles desprezavam enquanto se ocupavam com a manga do topo.
Mas eu dei a eles algo muito melhor: paixão, ardor, sonho e um objetivo. Acho que até esqueceram da fome.
Um velho que morava no bloco do outro lado abriu a janela e pitou um cigarro.
Tinha cabelos longos e grisalhos, e parecia um poeta frustrado ou um roqueiro que foi engolido pela vida.
- Cuidado pra não acertar a janela do poeta - eu disse.
Os garotos não escutaram. Queriam aquela manga que se fazia de difícil.
- Ela só não se tocou ainda que nós estamos tentando derrubá-la. Quando ela se tocar, você vai ver - disse o Mat.
Então o Negro, com toda a mira que deus deu, depois de dez mil pedradas, acertou na maldita. A pedra, após derrubar a tal da manga, acertou em cheio o vidro do poeta.
Foi o suficiente para saírmos em disparada, até chegarmos ao bar onde era o sarau.
O sarau era no subsolo e ficamos lá na calçada de frente pro restaurante. Quem suspeitaria de nós?
Assoberbados de mangas, sentamos na calçada.
O preto, após um longo discurso sobre a manga, Simplesmente a pôs em um canto e esqueceu-a.
- posso comê-la? - perguntei.
- Come.
E foi assim que a manga, a tão dificultosa manga, após conquistada, foi prontamente esquecida, como sempre acontece.

falou.


d.b

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