Rock de meia-calça

"Com características libertárias e de contestação ao sistema pré-estabelecido, o Rock se firmou ao longo das décadas com características essencialmente machistas. Apesar de toda a agitação social dos anos 60 em torno da igualdade de condições entre homens e mulheres, elas aparecem quase sempre relegadas a um segundo plano."

Isso é incontestável. O início do rock'n'roll é dos cuecas. Mas observando seu amadurecimento, nomes femininos fizeram enormes diferenças no cenário rock/underground. As mulheres, que outrora colocadas para fazer back-vocals em estúdio, começam a ganhar um espaço independente no palco. O rock havia quebrado mais uma barreira que o sistema já tinha estabelecido. Lugar de mulher é no palco!

Destaco, pois, as mulheres que são "frontman", instrumentistas, compositoras... A mulherada que conquista(ou) espaço no cenário rock n’roll, enfrentando preconceitos, etc, etc.

Grace Slick
O sinônimo de Jefferson Airplane (na mesma linha em que John Lennon é sinônimo de Beatles). Grace deu vida e conceito para Jefferson Airplane. Ao escrever White Rabbit caracterizou não só a banda, mas também um período lindo que se abrira ali, a existência do rock psicodélico. Um vocal nada convencional. Nuances perfeitas. Densidade sob medida. Além de uma cantora, uma intérprete.
Sua banda passou por diversas fases e em cada uma, a importância de Grace tem que ser admitida. Uma das pioneiras no cenário do rock, mesmo com oposições de vários. Grace ajudou a reescrever a história da mulher no rock, de meros back-vocals no meio da música a idealizadoras de um novo estilo de música, não só como um símbolo sexual à frente do palco, mas como uma carga inspiradora para demais mulheres. Claro que não se pode desprezar seus olhos azuis e seu corpo escultural, mas, antes de chegar à sua imagem, ver o que ela fez.



Janis Joplin



Como não falar da minha menina? Janis, além de enfrentar os preconceitos de ser mulher, enfrentou o preconceito de sua cor. - Mas ela é branca? - pergunta o mamífero com teleencefálo altamente retardado com polegar opositor. Sim, mas a sua música era muito mais puxada para o blues, o que era considerado música de negros. Mas quem ia se meter a besta e parar uma voz tão potente quanto essa? Janis mostrou que para que uma mulher esteja no comando do rock não há necessidade de se mostrar sensual em cima do palco.
Ao contrário de muitos rostinhos bonitos que vemos por aí, Janis era considerada feia para sua época. Assim como a sua voz. Sua maior dificuldade durante sua carreira foi encontrar uma banda que desse suporte a sua incrível sensibilidade musical, além de lidar com seu coração.
Sofreu taxações por ser adepta ao bissexualismo, por viver como "um homem" (sexo, drogas, one night stand, rock 'n' roll...). Janis cobria qualquer um desses boatos com seu talento, com suas ideias. Não, não vou dizer que a voz dela seja audível para todos, mas é uma voz capaz de emocionar pedras. Janis morreu em 1970, aos 27 anos.


Joan Jett
The Runaways era uma formação somente de garotas. Garotas no seu teor mais completo. Elas faziam uma mistura de punk rock com heavy metal. As meninas eram ainda adolescentes, mas já tinham conteúdo de sobra para tocar. Se conheceram quando um empresário pensou em fazer uma banda de punk com garotas. As letras eram compostas por elas mesmas. O figurino em cima do palco era no mínimo excêntrico. Um absurdo, meninas com menos de 18 anos com lingerie em show. Chegaram a fazer uma turnê com The Ramones. A banda tinha um destaque: Joan Jett. Joan era a que compunha parte das músicas e que realmente tinha a essência de uma runaway. Na sua visão, o uso de roupas expositivas no palco não eram necessárias, se a música da banda fosse melhor.
Então, para justificar sua "presença" de roupas, dava o máximo de si no palco. As músicas eram "agressivas" para uma lady naquela época. Iam contra família, machismo... Pregavam uma nova geração de bandas femininas.




Priscilla Novaes Leone

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Ou Pitty, se você preferir. É um ícone no rock nacional atual. Saindo de uma região onde a música popular é o Axé e coisa parecida, Priscilla se destacou tendo suas origens em Elvis Presley (daí o nome Priscilla). Ela tem um gosto musical maduro e muito bem trabalhado. Suas influências vão desde Etta James (jazz e r&b) à Metallica. Sua primeira banda era composta apenas por meninas cujo nome era Shes. A banda tinha letras fracas mas muito agressivas ao público. Falando de sistema, de estereótipos e, por fim, de si mesmas. Logo depois veio a Inkoma. Bom, se Shes já tinha um caráter mais "antissistema", Inkoma foi um soco na cara de muitas pessoas tradicionais. Um hardcore feito com total louvor, mesmo que a voz da Pitty tenha algumas nuances mais delicadas, o teor da banda era muito forte. Venderam 1.500 cópias da primeira fita demo.
Aí a sorte sorriu para essa moça de 1,58m. O mesmo produtor de Raimundos gostou do que ouviu. Surgiu então Pitty (a banda). Claro que a diferença do primeiro álbum para o último é gritante. Mas é o caso de amadurecimento. Pitty não é mais a menina que cantava no Inkoma. Hoje com a idade de Cristo, as músicas estão mais maduras e muito mais trabalhadas. Penso que o Chiarouscuro é como um teste para o que estamos para ver dela. Esse foi o primeiro álbum que saiu do padrão vocal-guitarra base-guitarra solo-baixo-bateria. O resultado foi ótimo, apesar de que a divulgação do mesmo foi saturada.
Mas o que é incontestável é a presença de palco dessa mulher. MANO! É uma coisa linda e quente. Não, não. Não é algo sexual. É algo viril, forte, vivo! Ela domina o palco. Ela é o palco. Ela é aquilo que prega!


Rita Lee

A Rainha do Rock Nacional. Rita Lee não é somente uma cantora ou uma compositora. É uma pessoa que tem conteúdo e não tem medo de expô-lo. Como diria Sokol, se Rita fosse Britney Spears, eu seria emo. Rita começou sua carreira por volta de 1966 com a banda Os Mutantes. Rita gravou seis álbuns e foi casada com um dos integrantes da banda. Em 1972, ela foi expulsa da banda. Em 77 assinou o divórcio com o tal integrante. Oh God! They broke her heart! NÃO! Para nós, meras mortais, poderíamos entrar numa fossa eterna por perder uma banda (e não qualquer banda) e um amor em menos de 10 anos. Mas não RITA LEE JONES! Rita até que deve ter esboçado uma ou trinta lágrimas, mas logo passou. Formou uma dupla com uma amiga que não foi bem sucedida, mas logo depois emplacou com a banda Tutti Frutti. Nessa banda, Rita conseguiu a consagração nacional. Seu nome era sinônimo de rock. As músicas Menino Bonito, Ando Jururu, Esse tal de roque enrow e claro Ovelha Negra foram um pontapé para quem estava divorciada de banda e de marido.
Desde então, a coroa foi colocada em sua cabeça, e hoje não vejo quem possa sucedê-la. Uma compositora e uma cantora. Uma artista que até hoje leva o nome do rock 'n' roll nas mãos. Suas músicas foram gravadas por muitos artistas. Além dela mesma gravar suas músicas.


Pink

Sim! Pink  pode não ser uma das melhores compositoras americanas (e não é), mas a sua voz e suas influências são inegavelmente lindas. Tendo em vista que o mercado atual americano de música se prende a mulheres com curvas maiores que seu talento ou bizarrices sem fim, Pink é o meio termo do pop rock americano hoje.
O seu primeiro álbum foi o foco dos adolescentes. Ela, não muito satisfeita com isso, preparou-se melhor para o segundo. Pink, apesar de querer seguir a linha do rock, nunca conseguiu isso principalmente usando de campanhas publicitárias para se beneficiar. Quem não lembra dela cantando com Spears e Beyoncé, We will rock you, do Kiss, no comercial da Pepsi? Pois é, apesar de influências ótimas e uma voz poderosa, Pink não soube muito bem como levar o começo de sua carreira. Os seus singles e o resto de suas músicas são um pop exaustante. Algo que beira o desespero.
Por que então citar esse desastre aqui? Porque ainda assim Pink é uma grande influência. Suas músicas, apesar de não tão bem escritas (fui sutil?), têm um conteúdo muito íntimo e próprio. Ora tão introspectivas, ora abordam alguns temas mais quentes como a influência da mídia na cabeça das pessoas. Suas atitudes e sua habilidade com o palco/plateia é admirável. Seu timbre é um dos mais lindos na minha opinião. 
Logo, tendo em vista que deixei claro que não gosto de suas composições, o vídeo é de uma versão da música Baby I'm gonna leave you, do Led Zeppelin.


Fernanda Takai

Abre parêntese (Nesse exato momento, posso imaginar o sorriso torto do Devana ao ver isso. Agora posso ouvir a sua gargalhada.) Fecha parêntese.
Quem me conhece, ou já me ouviu falando (e não escrevendo) de música, sabe o quão chata e teimosa posso ser durante uma conversa. Cá estou eu me redimindo de um desamor que tinha por essa moça, Fernanda Takai. Fernanda é a vocalista da banda Pato Fu. Uma voz doce, um timbre audível, entoado. Mas engana-se você (como enganei-me também) que é só aquela musiquinha melosa e cansativa que a mídia mostra. O que me surpreendeu, no show em que fui (sob protesto), foi a energia que eles têm. Oh man! Eu vi Fernanda como nunca imaginei que veria um dia. Sua voz (que está entre uma das 10 melhores do mundo segundo a revista TIME) se encaixa perfeitamente à proposta da banda, um rock alternativo intimista e vivo. Influências no rock inglês e na MPB, a banda também se encaixa perfeitamente à proposta dela.


É isso, vou ficar por aqui. Ainda há grandes nomes femininos que tatuaram o corpo do rock 'n' roll e esse ficará marcado para sempre, por essas ladies que me deixam orgulhosas. A todos, um abraço.

Anne K.

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