Um de Nós Tem Que Morrer!

Imagem por RicardoCaldeira (SambaRaul!)


Imagem por RicardoCaldeira (SambaRaul!)
“Um de nós tem que morrer!”
Até hoje, as palavras ecoam na minha mente. Foram pronunciadas pelo João Rotto, naqueles dias tão estranhos, tão comuns naqueles anos.
Lembro até hoje de sua face transfigurada. E de seu gestual típico. O jeito como ele usava as mãos em concha,  retorcendo-as como um epilético, modulando-as no ar, sempre trêmulas. O jeito como ele costumava jogar o peso e a coluna pra trás, apoiando-se na perna esquerda, como fazem os astros de rock no palco. Porque João Rotto nunca saia do palco. A vida dele sempre foi um grande show de punk rock.
Tem também o jeito insano como ele sorria, como se não estivesse entre nós, mas dentro das próprias ideias. Um excêntrico. Um cara que sempre soava estranho, como se fosse alguém que ainda não entendeu a dinâmica do mundo. Alguém sincero demais pra ser considerado são.
Finalmente, tinha o jeito como ele olhava fixamente para um ponto, fazendo seus olhos injetados parecerem de vidro. Era assim que ele falava quando estava excitado por uma ideia, e foi quase assim que ele falou quando pronunciou a fatídica frase:
“Um de nós tem que morrer!”
Havia um quê diferente no jeito como ele a pronunciara naquela noite. Ainda era o mesmo. Os mesmos gestos. Os mesmos trejeitos. A mesma voz aguda e arrastada de brasiliense com ascendência cearense. O mesmo jeito louco de parecer. Mas no fundo disso tudo, havia, dessa vez, um certo nervosismo. Um certo descontrole. Um certo desespero.
Não era a loucura cotidiana dele. Era como se o louco tivesse surtado. Era como se ele tivesse virado um supersaiajin.
Uma série de fatores o haviam conduzido a esse estado psicótico.
O primeiro era o frequente abuso de certos psicotrópicos que ele vinha cometendo recentemente. era quase inacreditável a mudança radical que isso causava na personalidade dele. Era notável.
Rotto, embora louco, estranho, exaltado e exultante, costumava ser doce, amável e companheiro. Um doce bárbaro.
Num segundo momento, porém, tornara-se irritadiço, bipolar e nervoso. Tenso. Andava com o olhar perdido. O que leva ao segundo fator:
Rotto andava obcecado pela morte. Especialmente pela morte precoce de grandes astros. Os velhos mitos. As velhas teorias conspiratórias. As velhas coincidências. Tudo isso o vinha perturbando poderosamente nos últimos e abstratos dias que vinhamos vivendo.BonhanJhonJimiJimJanisIanKurtBrianRenatoCazuzaCássiaDinhoSidTodoMundo. Todos os que tiveram mortes trágicas, lindas e geniais.  Que tinham entrado para a história. Que nunca foram esquecidos. Todos os que, ele sentia, haviam depositado seus espíritos nele. Não era megalomania nem pretensão. Não era estupidez nem ignorância. Era apenas algo que o perturbava. Que o fazia perguntar, entre outras coisas: Morrer como um gênio ou viver até mais tarde? Eu sou um gênio, como eles? Não seria muito clássico morrer como eles? Existe essa necessidade? Viver pra quê? Morrer pra quê? Ser um gênio pra quê? What a hell I’m doing here? I don’t belong here… Porque, de certa forma, ele era um deles. Ou não. O que leva à um terceiro fator:
Estávamos passando por uma crise seríssima na banda. Que refletia e era refletida por problemas pessoais do Rotto.
por um certo ralapso que Não quer se identificar


por um certo ralapso que Não quer se identificar
Matéria Fecal começou literalmente no cocô. Éramos garotos da periferia de Brasília que tinham o simples sonho de fazer um som. Tocar nos showzinhos, curtir com a galera, beber, conhecer gente, garotas, esse tipo de coisa. Intimamente, sonhávamos em ser astros, mas nunca levamos isso a sério, mesmo porque parecia um sonho muito distante.
Fui o último a entrar na banda. Entrei depois do primeiro baixista ter, bem… saído. Digamos que elenão tinha mais condições de tocar.
O guitarrista era o Angenor. Entre nós, ele ostentava maior repertório musical. Era o cara mais sério da banda, que amarrava nossas pontas. Nunca faltava aos ensaios. O que matava mesmo eram suas obrigações conjugais. Começara a namorar uma menina que, bem, tomava muito o seu tempo. Logo depois ela engravidou e, quando nasceu a Carla, filha que foi batizada com o nome da música do LS Jack, eles foram morar juntos.
O batera era o Jackson (leia-se Jáquisson). Fã de samba e de música brasileira, era o mais estudioso, seguido de perto pelo Rotto. Era também o mais sucedito em termos musicais.
A banda era bem reconhecida e nunca faltou showzinho pra tocarmos. Nosso “hit”, “Atentado ao Trabalhador”, era um hino no pequeno circuito underground. Pra ser sincero,  era a única música que todos conheciam.
Logo gravamos nossa primeira demo. Embora eu ache que, até hoje, são nossas melhores músicas, com um punkrock/hardcore rápido, gostoso, crítico, cotidiano e com pequeníssimas pitadas grunge (a banda começou a tocar mandando Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains e SoundGarden), só quando começamos a fazer outros tipos de composições é que realmente decolamos, um pouco.
A verdade é que começamos a crescer pessoalmente e aquele espírito punk rock já não fazia nossa cabeça. Amávamos as músicas, mas queríamos algo mais. O Jackson era viciado em música brasileira. Havia entrado pra UnB, pra Escola de Música de Brasília e estava sempre tocando em alguma dessas  bandas de música brasileira por aí. Ele era o mais “cosmopolita”, tocando direto no Plano Piloto e em outras satélites. Tirava seu sustento daí e das aulas naBrazilian Music. O Angenor sempre fora um louco por MPB e, paralelo à banda, tinha uma carreira meio que folk, com sua voz e seu violão. Não compunha nada mas era um ótimo intérprete, ao ponto de interpretar músicas alheias como se fossem suas próprias. E ganhava a vida fazendo barzinho. O Rotto também estava  na Escola de Música e na UnB, e estava conhecendo todo um mundo novo. Quanto a mim… bem; eu era o mais novo da banda, cerca de quatro anos mais novo que todo mundo.
O resultado não foi outro. Fizemos músicas mais adultas, gravamos um novo demo e conseguimos ser produzidos por um grande selo independente. Daí pra frente, começamos a crescer rapidamente. As novas músicas eram potenciais comerciais e vendiam como água. Os antigos fãs e amigos se ressentiam, dizendo que havíamos nos vendido. Mas conquistamos uma nova legião de fãs, que viam nas nossas músicas e posturas toda a verve revolucionária  e social que faltara por toda a nossa década e geração. Como não conheciam a primeira fase da banda, consideravam nossas canções a fina flor da rebeldia. E, de certa forma, o eram.
A verdade é que nossa geração nunca teve um ídolo, um grande movimento, algo forte e memóravel. E, nesse cenário árido, surge a nossa querida banda como um arauto da salvação, um sinal de que nem tudo está perdido, de que ainda existe vida e vida em abundância. Um remédio que suprisse toda a carência. E, no alto do pedestal disso tudo, quem? João Rotto,com  seu jeito de doido, suas frases de efeito, suas opiniões sobre tudo, suas entrevistas polêmicas, suas atitudes duvidosas e sua performance inesquecível. Ah! E o gestual típico. E vinha surfando na crista de uma onda muito importante e muito conveniente: O andergraundismo.
Em tempos de internet, de produções independentes cada vez mais fortes, de coletivos e mais coletivos surgindo e de ferramentas de produção cada vez mais acessíveis através de computadores, câmeras digitais e outros aparelhos, que ficavam cada vez mais baratos, a bandeira do underground foi um caminho natural.
No princípio, eram atitudes e iniciativas isoladas, que carregavam outras bandeiras e usavam o underground só como ferramenta. Mas, com o tempo, as pessoas foram percebendo que ser independente era o próprio ideal, caminho para a justiça social, a igualdade entre os seres humanos e os mais antigos anseios da humanidade. A produção independente transformava os indivíduos e as sociedades. E se tornou algo muito poderoso quando as pessoas começaram a se organizar em torno dessa bandeira e, principalmente, encontraram seus próprios inimigos, o que as fortaleceu muito.
E o Rotto… o Rotto era a própria encarnação do underground!
Por isso, ele rapidamente se transformou num ídolo, um messias, um garoto propaganda. Ele era carísmático e, toda a sua vida, militara em favor do andergraundismo, e sua vida e história eram a própria prova de que o sonho era possível. Sempre fora um grande produtor independente em sua vida, produzindo shows, projetos de educação, projetos políticos e, principalmente, sua própria banda, que era andergraundemente bem sucedida. Tínhamos um sucesso moderado, éramos conhecidos em todo o País e até no mundo, mas por comunidades pequenas e selecionadas. E estávamos num momento muito delicado do nosso jogo de xadrez.
Não tinhamos mais pra onde evoluir. Havíamos esgotado todas as possibilidades de propagação de nossas idéias e de nós mesmos. As grandes gravadoras estavam nos assediando e queriam porque queriam contrato conosco, nem que tivessem que nos dar uma tira de couro. Nem que tivessem que, sistematicamente, sabotar nossas ações e minar nossas possibilidades de desenvolvimento, como só as grandes corporações sabem fazer.
Se, realmente, nossa única intenção fosse ficar famosos e ricos, estaríamos feitos. As propostas eram ótimas.
Mas nosso ideal não era esse. O que queríamos era poder continuar tocando o nosso rock, viajando, conhecendo gente, bebendo estupefacientes, conhecendo garotas e propagando nossa mensagem andergraunde. Esse era o nosso espírito. Esse era o nosso estilo de vida, que pregávamos e vivíamos. O grande sonho andergraunde de viver e se sustentar daquilo que se ama. Estávamos felizes e realizados.
Mas, como sempre, só não havíamos previsto o imprevisto. O impasse. Não poderíamos viver assim pra sempre… e o que estava em jogo ali era justamente o nosso estilo de vida. Se não avançassemos para o próximo passo, nosso destino seria, já dali o víamos, o ostracismo e o esquecimento. E tudo o que conquistamos desmoranaria de vez. Mas o próximo passo era, justamente -  sejamos sinceros -  nos vender. O que, de uma maneira ou de outra, abalaria nossa reputação, arruinaria a fé de nossos companheiros, ameaçaria nosso estilo de vida e talvez aruinasse todo o movimento. O que os mais de 100.000 seguidores do twitter de Rotto fariam?
Rotto se sentia muito pressionado por causa disso. Mas do que todos nós, é claro. Ele não escolhera nada disso, mas inconscientemente fora adotando o pappel para si e assumindo o personagem. E agora se via nesse terrível xeque. O que o conduziu a todos os pensamentos sombrios anteriormente citados, que o levaram ao abuso dos psicotrópicos, que se agravaram pelos seus problemas com o sono, sintoma de sua antiga vida como trabalhador noturno noCorcovado 24hs. Rotto nunca dormiu direito a vida toda. Uma vez, numa entrevista, perguntado sobre seu maior sonho, Rotto respondeu: “Seria dormir, caso eu dormisse e sonhasse“. E a junção disso tudo o levou àquele estado psicótico e tenso em que se encontrava quando pronunciou a fatídica frase:
Um de nós tem que morrer!

Pelo mesmo ser relapso da imagem acima, Apenas conhecido como Espectro Maledicente.


Pelo mesmo ser relapso da imagem acima, Apenas conhecido como Espectro Maledicente.
Estávamos todos nós, os quatro, reunidos no sítio do Genô. Estávamos lá há cerca de um mês. Havíamos anunciado férias, por tempo indeterminado, em todas as mídias independentes que nos apoiavam e nos noticiavam. Os objetivos eram pensar sobre nossos próximos e decisivos passos, com muita calma, e trabalhar na produção do nosso quarto CD, ou o segundo oficial. Como ele seria lançado é o que descobriríamos depois. De vez em quando recebíamos visitas, de amigos e garotas, mas, em geral, éramos só nós quatro. em geral, Éramos Quatro. Me pergunto até que ponto o claustro precipitou os assombrosos fatos que se seguiram. Porque a tensão do momento pairava sinistramente no ar. Pensávamos e conversávamos quase exclusivamente sobre isso ou coisas afins, quando conversávamos. Pois, em geral, não conversávamos muito. Nem o Jackson, que era o mais falante. Quanto ao Rotto… praticamente só o víamos na hora das gravações e ensaios. Só comia no quarto dele e o resto do tempo estava passeando pelo sítio, andando de bicicleta, nadando no rio, olhando as estrelas, estudando astrologia, e, na maior parte do tempo, lendo aquelas terríveis biografias. Sempre mudo, introspectivo, sorumbático. Sempre com uma garrafa de ipióca ou cerveja na mão. O que nos deixava ainda mais tensos.
Mas o respeitávamos. Sabíamos que estava buscando uma solução. Sabíamos que seus ossos estavam crescendo mais do que o seu corpo. Talvez tivesse sentindo a chegada de Saturno. Sutil e poderosa. Se ao menos pudéssemos prever o futuro… não seríamos tão pacientes. Mas aquela tensão toda no ar nos deixava num estado hipnótico e transítico, e talvez por isso tenhamos encarado os fatos da forma como encaramos. Os dias eram cinzas e frios, mas estavam tão conectados a nosso espírito que nem sequer notávamos.
Foi assim que, um belo dia, quando estavamos eu, Genô e Jackson na beira de uma fogueira, o Rotto apareceu, com aquele seu jeito imersivo, na beira da fogueira e parou. Meio “comequieto”. A fogueira iluminava sua cara bege gerando um incrível contraste. Havia sombra em volta dos olhos e só se via seu globo ocular. Talvez por isso seus olhos tenham parecido tão iluminados quando seu rosto compenetrado se metamorfoseou, lenta e calculadamente, num sorriso de cientista louco prestes à fazer maldade. Uau… seus olhos…. estavam brilhantes, vermelhos, de sangue e de luz, insanos e insalubres. Não sei se refletiam o fogo ou o fogo os refletia. Só sei que, enquanto o olhávamos com expectativa, ele soltou uma intensa e descontrolada gargalhada, daquelas que a gente só vê em animes. Era uma gargalhada provocadora e enigmática. Foi quando ele apontou o crânio com o indicador e ficou cutucando vigorosamente, como se ele não soubesse medir a própria força,  como ele sempre fazia quando tinha uma idéia doida, mas dessa vez amplificado pela insanidade como que por um p.a. de 12.
HAHAHAHAHHA! Eu já sei! eu já sei moleque! Já sei o que a gente tem que fazer HEHHEHE!
Perto do fogoeu podia sentir… saía do seu olho e chegava em mim. Embora olhasse fixamente para o fogo. Embora não o olhássemos diretamente.
Genô permanecia dedilhando o violão. Então Rotto tirou o trinta e oito da cintura, apontou pra cabeça e cutucou exatamente como fazia anteriormente com o indicador:
HAHHHAHAHAHHAHAHAHAH! Um de nós tem que morrer! É isso! HHAHAHA!
Angenor quase caiu da cadeira.  O Jackson só ficou sentado com uma cara séria de bêbado. Eu mal conseguia me mover. Até então, nunca havia visto uma arma.
Que porra é essa, Rotto?,
bradava o Angenor.
Onde é que cê arranjou isso?
Consegui com o Brendo, do Alvejante, HAHA. Não é engraçado? O alvejante ajuda a matar a Matéria Fecal HAHA! Dá até manchete!.
Suas gargalhadas assustavam. Era como se ele não estivesse ali. Como se estivesse possuído.
Bicho, para de mexer com essa porra, véi. Cê vai nessa onda do Brendo e vai acabar se ferrando igual ele. Ele é muito gente boa, é um broderzão, mas escolheu mexer com as paradas erradas. Qualquer dia desses vai parar no ‘Paraíso das Almas’ que ele tanto canta.
Porra nenhuma, Genô.Porra nenhuma. A culpa é do sisteeee-MA! Ele só pediu pra guardar. HAHHAAH! Mas vai ser a nossa solução, moleque! Sabe por quê? Porque um de nós vai morrer hoje à noite e a gente vai ficar famoso pra caralho, HAHAHA! É genial! Um de nós morre e nossa banda entra pra história! Todo mundo vai nos paparicar e nossas vendas vão aumentar. A gente não tem que fechar com porra de gravadora nenhuma! HAHA! E o Andergraundismo vai ter um grande mártir, quem sabe um santo pra sair convertendo o mundo todo! HUHU! Nós so-mos ma-té-rias FECAIS! tun dum! turuduruduru Tum Dum! HAHAHAH!
O plano fazia todo o sentido. O momento era ultra propício. Estavam todos atentos ao que faríamos. Os holofotes estavam virados pra nós. Embora fossemos celebridades menores. Rotto era uma celebridade conhecida por todos mas ignorada por muitos. E se, de repente, ele morresse trágicamente, em circunstâncias completamente absurdas? O País todo se comoveria. Teríamos mídia gratuita até o fim do outro ano. Até lá estaríamos ricos. Eu até poderia escrever um best seller. O plano era perfeito. Lógico.
Só o que não fazia sentido era… matar um de nossos amigos por causa disso.
Apesar disso, o clima estava muito propício. Propício para a morte. As coisas pareciam demasiado insuportáveis. Olhando pra trás, eu vejo o quanto todos os problemas eram pequenos. Mas na ocasião… eles eram maiores do que nós. E nós éramos demasiado sensíveis. Acho que por isso e pelo fato de eu ter levado tudo como uma grande brincadeira séria, além do estado emocional de Rotto, me levaram a encarar tudo com um certo ceticismo. Além do mais, eu era jovem e impressionável.
O Genô tentou ser enérgico. Foi pra cima de Rotto com tudo, mas ele deu um tiro pro alto, deixando Genô paralisado de susto. Apontou pra Angenor e, quando eu olhei pra sua cara, sua expressão era a pura ira.
Genô recuou, obviamente. Eu ainda paralisado. Jackson completemente bêbado.
Deixa dessa idéia estúpida, Rotto. Você não é o Sid Vicious não, moço.
Bora ver… HAHHAHA!
e colocou o revólver na têmpora.
Pensa, Genô, pensa. Pensa na sua filhinha, Angenor!
Não mete a minha filha nisso, véi! Eu não vou admitir!
bem,
continuou o Rotto,
De qualquer forma, eu não estou pedindo a opinião de vocês. Eu já tomei minha decisão. Só queria compartilhar isso com vocês e queria que vocês soubessem e… que vissem. Adeus, amigos, foi um prazer tocar com vocês.,
disse ele colocando a arma na cabeça, e ia puxando o gatilho quando…
Espera!,
eu gritei, desesperado.
Todos olharam pra mim daquele jeito que sempre acontecia comigo em qualquer tipo de reunião, seja de escola, trabalho, arte, banda ou qualquer outro tipo. Tenho o hábito de me manter calado, pensativo, nessas ocasiões. Em determinados momentos, decido falar. Nesses momentos, sempre todos ficam atentos e silenciosos olhando pra mim. Era bizarro, constrangedor, mas já estava acostumado. Foi o que aconteceu naquele momento.
Eu…,
hesitei. Exultei:
“Eu morro.”
Um pesado silêncio se abateu. Então o ébrio Jackson se manifestou, com a voz embolada e cuspindo, sem nem olhar pra nós, como se estivesse cego de vodka:
Não, não vai não. O que seu pai vai falar? Você não!
Por que não? Eu sou o mais novo e sou o músico mais dispensável da banda. E… Se o Rotto morrer… A banda já era… e o movimento já era. Mas se eu morro… vai ser comovente por eu ser novo e tal, mas a banda continuará sem mim. Além do mais… vocês sabem muito bem o que eu fiz com o primeiro baixista, quando…
Calaboca! ,
bradou o Jackson.
Você não fez nada, porra, cê sabe disso.
FIZ SIM, Jack, cê sabe muito  bem que eu…
NÃO FOI CULPA SUA, PORRA! Você não matou o Elomar!
Matei sim! MATEI SIM, Você sabe muito bem!
as lágrimas rolavam grossas e as lembranças vieram com força.
Eu… matei ele… Eu nunca esqueci isso, caras, eu nunca esqueci isso. Eu sou mau, eu queria ser bem mas sou mau e… As pessoas fazem bem pra mim e eu só faço mal pra elas… eu tento fazer bem mas eu só faço mal… O Rotto me trata bem e eu trato ele mal! Essa é a minha chance de me redimir com ele… e com a banda! ahu! E vocês… Não podem me tirar isso! Ahuhuc! O… O Rotto está absolutamente certo! UM DE NÓS TEM QUE MORRER! E eu quero que seja eu > AHUhu! Ahuc!
Todos ficaram calados. Eu fiquei chorando. Então o Genô gritou:
Vamos parar com isso, ok! Ninguém vai morrer aqui, ninguém, isso não passa de loucura de vocês”.
Porra nenhuma, Genô. Cê só sabe falar isso. Taá veno não? Essa é a salvação da banda, cara! A salvação da humanidade toda! Além do mais, você é o principal motivo e atingido disso! Pense na sua filhinha, Genô, pense na sua filhinha! Você nunca mais vai passar aperto pra criar ela… E vai poder vê-la quando quiser! Não vai mais ter que ficar meses na estrada longe dela! Vocês podem… Vocês podem até comprar um jatinho! Você quer ser um péssimo pai pelo resto da vida, seu nariz de platina?
Os olhos de Rotto brilhavam oníricos, cínicos. Os olhos de Genô esbugalharam clínicos, críticos:
Eu não admito isso, Rotto.
E agora quem se debulhava em lágrimas era ele.
Eu >hic< não admito que ninguém fale que eu não cuido bem da minha filha pra ficar me…! EU AMO MINHA FILHA! >ahuc< Mais do que tudo! Mais que essa banda de merda! Mais que você, Rotto! Não admito! Já não basta o meu pai! Não usa minha filha contra mim não, bahia, por favor! >ahuc
Ele estava tão perturbado que tropeçou numa planta e caiu pra trás.
Só estou pensando no nosso futuro, Nô!”
“Então, Rotto… Se vc pensa tanto no sustento da minha filha, porquê não fechamos os contrato com a gravadora?”
“NÃO!”.
Foi assombroso. A voz de roto saiu rouca e cavernosa, como a de um Deus de desenho animado.
“Já disse! O que está em jogo não é só a sua filha! É futuro de TODOS! ENTENDEU, porra! Um de nós tem que morrer, e um denós VAI morrer hoje! Seje eu, seje ele, seje qualquer um! >Rnnf, rnnf, rnnf<”
“Então…”
disse o jackson, se levantando,
“Então eu vou! Eu já tou fudido mesmo… Tou só o pó…. Ninguém vai nem sentir falta.. quer dizer, muita gente vai sentir falta, meus milhares de amigos, mas ninguém vai se surpreender! Deixa que eu vou, porra!”
Agora eram três lunáticos querendo morrer. A verdade, a grande verdade é que, além de querer salvar a banda ou o movimento ou o mundo ou a filha ou o que seja, nós queríamos salvar a nós mesmos. Intimamente, queríamos realmente morrer. Acho que, no fundo, no fundo, no fundo, todo mundo tem uma vontade secreta de morrer. Por curiosidade ou por ser muito confortável, já que viver é tão estranho. No fundo, estar morto é mais natural do que estar vivo, tanto é que a natureza nos empurra naturalmente pra esse destino, tal como a lei da gravidade faz tudo cair. E a situação toda foi o impulso que faltava para liberar nossas aspirações mórbidas e desejos mais secretos. Afastados da civilização, dos amigos e da família, então, a decisão se tornava mais fácil. Além do mais, acho que já tinhamos cansado de viver, tanto que já tinhamos vivido. Estávamos sendo mais egoístas que altruístas.  Era catártico.
“O que está acontecendo, gente?”,
clamava o Angenor.
“Por quê vocês querem morrer?”
“Porque é o nosso destino, Genô.”,
eu disse, filosófico. Sempre me ocorrem essas palhaçadas nessas horas.
“Porque tudo que é vivo morr–”
“Não vem com poesia agora não, véi. Eu me recuso a participar disso! Me recuso!”
“Se recusando ou não, Genô, a gente já está decidido. Alguém vai sair morto daqui!”
“Viver é uma dádiva fatal, Rotto. Lembra? No fim das contas, ninguém sai vivo daqui. Mas vamos com calma! Vamos com calma!”
“Viu! Você está citando um cara que se deixou matar pela AIDS! Ele deve ter passado pelo mesmo que nós! Por que não deixar as coisas acontecerem como devem ser, Gê?”
Gê respirava fundo e pensava. Seus olhos estavam vermelhíssimos. Ele não podia contra um bêbado, um moleque e um doido armado. Algum tipo de Five to one, baby, one in five. no here gets out alive. Então, com um soluço, ele chorou:
“Vocês fazem o que vocês quiserem! Eu vou embora daqui! Hic! Espero ver vocês de novo algum dia.”
Pegou o violão. Deu um beijo, um abraço e um aperto de mão em cada um de nós e saiu em silêncio. Em poucos minutos ouvimos o barulho da moto partindo.
“Bem…”,
disse o Rotto,
“Agora somos só nós. E temos um impasse. Um de nós tem que morrer. Mas quem?”.
“Não temos impasse nenhum.”,
eu disse.
Por quê? Você acha que só você tem o direito de morrer, é? Eu sou o mentor da banda, eu tenho que morrer! Vai ser mais genial assim! Genial!”
“Eu tenho uma proposta pra tornar as coisas justas.”,
disse eu calmamente. Eles me fitaram. Continuei:
Você tem um trinta e oito… Ele é muito sugestivo. Acho que vamos nos divertir um pouco.”
“Que porra de divertir o quê, moleque…”
“Calma, Rotto. Nós só vamos jogar um  jogo…”
“Que porra de…”
“OUVE, DESGRAÇA!”
“…”
“Fala.”
“Simples. Vamos jogar roleta russa. Quem perder, ganha, no ato.”
“HA. HAHA. HAHHHAHAHHHA!”
Achei que ele ia me tirar de tempo. Pra meu desespero, ele levou a sério:
“BOA! GENIAL! HAHA!”,
dizia Rotto, efusivo, apontando o cérebro com a arma, naquela pose.
“Genial, de onde é que cê tira essa coisas, hein, mulek?”
disse esfregando a mão no meu cabelo como costumava fazer comigo.
“Muita literatura barata…”,
eu repondi.
Mais uma do espectro. Uns dizem que ele é o Dr Manhattan outros que é uma particula Sub-atomica. o que se sabe é que ele é a perna que falta na mesa.


Mais uma do espectro. Uns dizem que ele é o Dr Manhattan outros que é uma particula Sub-atomica. o que se sabe é que ele é a perna que falta na mesa.
Os caras toparam. Era perfeito. Jogaríamos a roleta, e a sorte, ou a morte, escolheria seu eleito. O trinta e oito tinha seis compartimentos. carregaríamos apenas um. Jogaríamos a primeira rodada e, se ninguém fosse premiado, rodaria mais uma vez, começando do primeiro. As chances eram identicamente iguais, e seis disparos seriam efetuados. um estaria premiado, indefectívelmente. Alguém teria que morrer. De qualquer jeito. O tiro seria efetuado pelo próprio jogador. Quando se consumasse, os outros ligariam pra polícia e diriam que foi suicídio.
Então sentamos em roda em torno da fogueira. Perto do fogo, como na Idade Média. Tudo acabaria como começou: Ao som de Pearl Jam, que estava rolando dentro da casa, já que alguém tinha deixado o som ligado.
Sentamo-nos em torno da fogueira, olhando-nos nos olhos. Tiramos no Jo-Ken-Po quem seria o primeiro. Nessas horas sempre me ocorrem essas palhaçadas.
O primeiro seria o Jackson. Em seguida eu. E por último, o Rotto.
Rotto pegou o revólver. Carregou com a única bala. Girou a roleta e respirou fundo. Entregou a arma pro Jackson e uma garrafa de vinho pra mim.
“Bebe aí, rapaz, pra tomar coragem”.
Olhei bem para a garrafa e ela olhou pra mim, sorridente. Pensei:
“Foda-se”.
Foi a primeira vez que eu bebi. Foi a primeira vez que eu xinguei. Baudelaire me veio à memória.
Jack pegou a arma. Ele nem sabia pegar direito. Engatilhou o revólver. Beatles me veio à cabeça. Jack mirou sua cabeça. Ele olhou bem pra nós e disse, trêmulo:
“Cerveja! … Eu te amo até na hora de vomitar!”.
“click”.
Ainda bem que ele não morreu. Seriam péssimas últimas palavras. “Eu Sou o Deus Dourado” soaria melhor. Ele me passou o trêsoitão.
Engatilhei. Foi mais fácil do que pensei. A arma era mais pesada do que pensei. Mas, à queima roupa, não tinha como errar minha própria cabeça. Mirei. E fiquei pensativo. Eu sempre me descontrolo e começo a imaginar cenas além da que estou vivendo. Me vi morrendo. Vi o enterro. Eu chegando no céu. Eu fazendo uma revolução no paraíso. Eu sendo expulso do paraíso. Eu com uma arma na mão pensando na morte da bezerra, que era onde eu de fato estava. Pensei no garoto que eu havia matado. Por pura cobiça. Pelo mais obscuro desejo de tocar junto com o Matéria Fecal. Tecnicamente, eu não o matei, mas… O deixei morrer. Dava na mesma. Então eu vi mais uma vez os olhos dele, suplicantes, olhando pra mim, com seu contrabaixo nas costas. Aquele que eu usei por anos. Vendo isso uma vez mais, não tive a menor dúvida. Num espasmo, puxei o gatilho, sem hesitar:
“click!”.
Nada aconteceu. Merda.
Fiquei em transe. Rotto tomou a arma da minha mão.
Apenas olhou pra nós e disse, com veemência, como se tivesse certeza de que iria morrer:
“Vocês vão pegar o nosso cd, todas as gravações que eu fiz, e vão lançar ele depois que eu morrer, certo? Aí deve ter material pra lançar um disco “V”, um “Sgt Peppers” e um “Nevermind”, além de vários box. Falou. aprendi muito com vocês. Foi um grande prazer tocar com vocês.”
“BAM”.
Fade out to black.
Até hoje não assimilei completamente. Foi muito surreal. Ele estava lá, vivo, psicótico e, de repente… Os pedaços da cabeça rota de jhonny pelo chão. Era como se nunca tivesse existido. Entrei em choque imediatamente. Só acordei depois, no hospital.
Até hoje, em entrevistas, eles sempre perguntam pelo mesmo assunto: João Rotto. A maior celeridade morta de todos os tempos da terra Brasilis. O cara que revolucionou tudo. Até hoje não deram muita atenção pra minha obra literária, mas meu livro “Atentado ao Trabalhador: Minha vida com a ‘Incarnação do Andergraunde‘” tornou-se um grande best seller, e me rendeu dinheiro suficiente para ter uma aposentadoria digna e uma vida tranquila ao lado de Carla.
Hoje, sabemos que Rotto tinha planejado tudo desde o início. Ele tinha roubado.Ele conhecia um truque. Mas quem sou eu para destruir o mito?
É tão estranho… Os bons morrem antes. Assim parece ser quando me lembro dele, que acabou indo embora cedo demais…
***
Epílogo:
A morte de João Rotto mudou o mundo pra sempre. Ele só tinha 27 anos.
FIM.

d.b

Um comentário:

  1. Assim como a MATÉRIA FECAL, a crônica UM DE NÓS TEM QUE MORRER parece gerada das entranhas de um organismo complexo e revoltado: a própria periferia. Por isso exala a fermentação de tudo o que come (ouve) e deixa de comer no seu dia a dia. O resultado não é feio ou bonito, é incontrolavelmente pulsante como a verdadeira identidade de um grupo. Como Brasília ainda tenta esconder sua identidade, já posso ver os meninos de São Sebastião e seus instrumentos na altura da JK, trazendo cor e barulho para o Plano Piloto. Sejam bem vindos! Devana, ótimo texto!

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