Rebelde Sem Causa

O punk batendo cabeça ao som dos Coliformes Fecais

Sábado passado rolou um showzinho de punk rock aqui em São Sebastião. Era uma festa de comemoração do Dia do Trabalhador. Quem estava organizando o show era o folclórico Grilo, um professor punkezão das antigas que ostenta longos dreadlocks loiros. A gente chama ele de Rastacore, porque ele tem uma coisa assim meio rastafári e é superligado com o Congo Nya, um grupo de rastas de São Sebas.
O show era em um lugar muito punk, um local chamado Snook Bar, ou seja, um barzinho de sinuca em plena Rua da Gameleira, a rua mais movimentada da cidade, em frente ao Campo Central. Antigamente funcionava uma igreja lá, mas o pastor passou o estabelecimento para o dono do bar em função de uma dívida que tinha com esse mesmo. O Snook fica cerca de meio metro abaixo do nível da rua, sendo que a porta fica a apenas um metro do asfalto, o que dá uma sensação muito engraçada de subterrâneo (underground?).
O ônibus para exatamente na porta do bar (a gente vê o povo meio que de baixo para cima). É a coisa mais linda você ver o ônibus parando na porta do bar, e os punks descendo, todos a rigor, em meio ao sol modorrento de sábado à tarde, com suas guitarras e pratos nas costas, com seus trajes típicos, em meio aos trabalhadores e donas de casa com compras na mão, atravessando um cardume de jogadores de futebol infanto-juvenil que atravessava a rua para o campo, e o vai e vem das pessoas apressadas entre as lojas de CD, as eletroeletrônicas, os açougues e as máquinas de frango assado que ocupam as calçadas. O trânsito, completamente incompreensível, não tem mão nem contramão. Com a cara mais displiscente do mundo, eles vão entrando no bar, onde o som de The Clash imperava, convidativo.
A minha intenção era ir ao show para me divertir, conversar com os amigos e bater um pouco de cabeça para expulsar os demônios. Malgrado.
Em geral, as pessoas procuram no rock’n’roll um refúgio, um lugar para se sentir bem e ser respeitado com as suas diferenças, em geral iguais as dos outros.
Eu devo ser mesmo muito tosco, porque nesse dia eu me senti um excluído em meio aos excluídos.
Estávamos sentados na mesa de sinuca eu, Sara, Chibi-Chan, Kaique, amigo da Chibi, e o Ricardo Punk Sujo, que chamamos simplesmente de Punk, porque, da nova geração, ele é praticamente o único punk, mas punk mesmo, da cidade. A maior parte da galera é de metaleiros. É muito típico você estar falando sobre ele e alguém perguntar “Quem é o Ricardo?” e você responder “O punk, pô...”, no que o interlocutor diz “Ah, só!”.
O Ricardo sempre foi um punk careca (no bom sentido). Depois começou a deixar o cabelo crescer. Pois exatamente no dia desse show, o punk fez algo super ousado, ao menos na província de São Sebastião: raspou o cabelo e fez um moicano de cerca de 15 centímetros. Endureceu com sabão e lá foi ele todo serelepe curtir uma boa roda punk, naquela tarde de sábado. Para azar dele, sua mãe não gostou nem um pouco do novo visual. Enquanto conversávamos animadamente sobre alguma banalidade qualquer, sentados sobre a mesa de sinuca, eis que aparece, meio que do nada, furiosa, a mãe do punk.
A aparição dela foi tão estranha que eu mal notei que ela estava lá, até porque o som estava bem alto. Só vi que o punk estava com um expressão contrariada olhando lá apra fora e falando nomes feios, que eu não ouvia mas entendia só pelo movimento dos lábios. Olhei pra fora e a vi, e entendi tudo: “Se você não cortar essa merda você não entra em casa hoje!”. O punk tava meio que revoltado mas não dizia muita coisa. Ele só falou um palavrão e arremessou a chave para o lado de fora, onde a mãe dele estava. Ela tinha cara de brava, mas não arriscava um passo para dentro do Snook. Acho que ela estava meio intimidada. Ela jogava a chave de volta e gritava mais alguns impropérios. Felizmente, para o punk, ninguém ali pareceu notar a situação. Estavam todos compenetrados, olhando os CDs e fanzines, jogando sinuca, bebendo perto do balcão ou conversando.
Depois de algumas trocas de manifestações "carinhosas" entre mãe e filho, contrariada, e vendo que o filho não ia cortar seu lindo moicano, entrou no carro com um cara que não sei o que era dela e deu o fora.
Depois disso, é claro, a conversa ficou em torno desse incidente.
A Chibi foi a primeira a se manifestar, dizendo que entendia muito bem como era isso, e logo começou a falar que a mãe dela era igualzinha e narrar todas as situações pelas quais já passou com ela. Kaique também se manifestou, e disse que os pais dele não eram tão dramáticos, mas também eram bem complicados. A Sara disse que a mãe dela mal a deixa sair na rua, e que toda vez que ela sai ela fica olhando para os lados para ver se a mãe não a está seguindo. Dizendo ela que a mãe realmente a segue. Bem... Só porque ela é paranóica não quer dizer que eles não estejam atrás dela, como diria o Cobain. “Eu só vim pra cá hoje porque o Paulo Sérgio me trouxe, senão minha mãe não deixava. Não que ele seja de confiança...”.
Quanto a mim, não sabia onde enfiar minha cabeça. Todos eles tinham problemas legais com a família, histórias constrangedoras e divertidas, surras memoráveis. E eu? Eu percebi que eu tinha os melhores pais do mundo. Eles me dão liberdade para ir aonde eu quero, fazer o que eu quero, escolher a carreira que eu quero, cortar o cabelo do jeito que eu quero, sair com quem eu quero e ser quem eu quero, sem deixar de impor os devidos limites, é óbvio, limites muito bem impostos e justos. Eles me dão diálogo. Eles me dão atenção. Enfim, eles são os melhores pais que alguém poderia desejar. Que merda! Como eu vou poder ser revoltado assim? Como eu vou poder ser como os outros roqueiros problemáticos? Qual desculpa eu vou ter?
Acho que eu vou virar um desses skinheads retardados ou um desses burgueses que gostam de espancar mendigos. Ou talvez eu acabe fugindo de casa, do “ambiente familiar patriarcal” e acusar a família de ser uma instituição falida, virar socialista e renegar meu sobrenome.
Mas depois eu penso sobre isso. Agora minha minha mãe está me chamando para almoçar. Ela fez um rango divino!
Para não dizer que eu nunca dei nada a ninguém, deixo uma canção que isso tudo me fez lembrar:

Meus dois pais me tratam muito bem
(O que é que você tem que não fala com ninguém?)
Meus dois pais me dão muito carinho
(Então porque você se sente sempre tão sozinho?)
Meus dois pais me compreendem totalmente
(Como é que cê se sente, desabafa aqui com a gente!)
Meus dois pais me dão apoio moral
(Não dá pra ser legal, só pode ficar mal!)

MAMA MAMA MAMA MAMA
(PAPA PAPA PAPA PAPA)

Minha mãe até me deu essa guitarra
Ela acha bom que o filho caia na farra
E o meu carro foi meu pai que me deu
Filho homem tem que ter um carro seu
Fazem questão que eu só ande produzido
Se orgulham de ver o filhinho tão bonito
Me dão dinheiro pra eu gastar com a mulherada
Eu realmente não preciso mais de nada

 

Meus pais não querem
Que eu fique legal
Meus pais não querem
Que eu seja um cara normal
 
Não vai dar, assim não vai dar
Como é que eu vou crescer sem ter com quem me revoltar
Não vai dar, assim não vai dar
Pra eu amadurecer sem ter com quem me rebelar
 




Fonte: Móveis Coloniais de Acaju. Publicado em 6 de maio de 2010. Disponível em http://www.moveiscoloniaisdeacaju.com.br/blog/1077. Corrigido pelo co-editor punk da Gramática e skinhead da Ortografia (Brincadeirinha, Jr. Seu texto precisou de pouquíssimos retoques...). 

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3 comentários:

  1. Que loko!!!
    eu quero o Dagumé como Pai!!!
    hoje aos 23 anos tenho que retornar pra casa antes das 23!!!
    pra sua inveja devana tenho uma coisa a se queixar!!!
    mas é bom não se queixar de nada!
    vamos fazer o seguinte se você me der um notebook de volta
    eu troco meu pai no seu kkkkk
    dai vc vai poder reclamar.
    do horario
    da roupa que veste
    do tênis que tah sujo
    do cabelo que não foi cortado na 1ª semana do mês
    do quintal que não foi limpo
    dos cachorros que ainda não tomou banho.
    etc, etc e tal meu nobre

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  2. AHAHHAHAHAH! mas não aceito devolução!

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  3. Parecemos loucos para alguns pq não deixamos os filhos fazerem o que querem. Mas nós as mães além de loucas(pelos nossos filhos) somos também escandalosas (a grande maioria). Qualquer mãe ficaria assustada com um moicano na cabeça de um filho, já passei por isso apenas por alguns minutos, mas me assustei. Nós só amamos demais essas cabecinhas muuuuito diferentes e ficamos tentando protegê-los o tempo todo, mesmo que eles tenham maior idade.
    Muito bom o texto.

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