Réquiem para um Amigo Morto em Combate


Hoje faz exatamente um mês que Célio Mão-de-Aço, 45, passou para o andar de cima, mas a sua presença não nos abandonou, pois, a todo momento, alguém o traz à memória, relembrando este ou aquele fato, ou dito, ou trocadilho infame que boiavam incessantemente daqueles lábios negróides que iam daqui até o Paranoá e de cujo lado esquerdo sempre pendia um cigarro de procedência duvidosa e comprida cinza, enquanto um outro cigarro se escondia galhardamente entre a orelha direita e o crânio privilegiado, não só pelo tamanho como pelo cérebro inteligentíssimo, ornado por aqueles fiapos de cabelo pixaim que raramente receberam a visita de um pente ou escova durante o tempo em que o aclamado conserta-tudo permaneceu entre nós. Conheci Célio Mão-de-Aço quando ele ainda se chamava Célio Ismar Batista e trabalhava como funcionário terceirizado da Companhia de Luz de Brasília, cortando o fornecimento de luz dos clientes inadimplentes nas Asas Sul e Norte do Plano Piloto. Quando vi aquele rapaz jovem, negro, alto, forte e decidido, foi paixão à primeira vista, porém sendo ele dos melhores da agência em que trabalhava na 504 Sul, não foi com facilidade que consegui a sua transferência para a cidade-satélite de São Sebastião onde eu exercia a função de encarregado de turma da dita Companhia e onde também necessitava de um braço forte na realização da difícil tarefa de cortar a luz de uma clientela que, àquela altura da formação da cidade, com invasões pelos quatro cantos, cujos moradores, oriundos principalmente da Ceilândia, fugindo do fantasma do aluguel, utilizavam-se do expediente então bastante difundido de pedir emprestado sem intenção de devolução a energia elétrica que chegava até aos poucos bairros que possuíam o serviço formalizado. A Companhia se espremia então entre os clientes que pagavam pelo serviço e exigiam medidas enérgicas para a contenção das chamadas “gambiarras” e o apelo social que provinha dos bolsões de miséria, sem água, esgoto ou energia elétrica ,que, utilizando-se de formas digamos “alternativas”, davam os seus “pulos” formando verdadeiras teias gigantes de fios e cabos elétricos que acabavam por enfraquecer o fornecimento daqueles que pagavam mensalmente suas contas. Como funcionários terceirizados da Companhia de Luz, a parte fraca da corda, cabia a pessoas como eu e Célio Ismar - depois batizado por mim de Célio Bico-Doce - pela forma como conseguia engambelar certas figuras do sexo feminino que habitavam os guetos e favelas sansebastianenses - cabia a nós debelar a rede “alternativa” que grassava pelos bairros pobres da periferia de São Sebastião. (Sim! São Sebastião possuía sua própria periferia). Pois bem. Para ter Célio Ismar Bico-Doce Mão-de-aço como meu braço direito nesta luta que nunca foi minha, e na qual nunca deveria ter me metido, não tive escrúpulos de utilizar-me de meios também alternativos, utilizando-me do fato de um parente meu ser o encarregado geral da empresa para a qual trabalhávamos e tramei a transferência de Mão-de-Aço para São Sebastião, não esquecendo de utilizar o argumento de que a empresa economizaria vale-transporte, uma vez que o dito Célio residia na periferia (Sim!) desta cidade-satélite. Feito o maquiavelismo, que consumiu uma ou duas noites de sono, consumou-se uma parceria vitoriosa que me permitiu realizar o meu trabalho sujo a contento, chegando várias vezes a obter o melhor faturamento regional da Companhia, com ajuda de Célio e de outros companheiros de cuja competência me cerquei, quais sejam: Aloísio, Charley, Arlindo, Adriano, entre outros.
O maquiavelismo acima citado felizmente não foi o único que pratiquei ao longo de seis longos anos à frente desta equipe, que acabou por modificar todo o endereçamento da cidade que, àquela altura, assemelhava-se ao Inferno, da Divina Comédia, de Dante, com os círculos e espirais do inferno todos sem uma ordem numérica assimilável pela razão humana.
Cheguei ao cúmulo de desenhar o mapa de certos bairros, como o João Candido e a Vila do Boa, levando os croquis para aprovação dos engenheiros da Administração local, para facilitar a entrega das contas de luz e ,é claro, o corte do fornecimento dos inadimplentes e invasores, coisa que, provavelmente, não constará dos anais da Administração Regional, de vaga memória. Como um Robin Hood tupiniquim, preto e baixinho, roubava sistematicamente coisas e valores da empresa, superfaturando notas e maquiando relatórios para dividir o lucro espúrio entre os meus asseclas, mas se alguém perguntar sobre isto negarei veementemente até à morte – e tudo isto já era um prenúncio da minha veia socialista que até hoje me persegue, mas da qual pelo menos tenho consciência - e Célio, se vivo fosse, poderia atestar o que afirmo.
O anônimo Célio Ismar Batista, que veio a ser relativamente famoso como Célio Bico-Doce, alcançou fama mundial como Célio Mão-de-Aço após o lançamento universal do hit "Rap do Mala Gay", que compus como crítica maldosa – o que não é do meu feitio - ao fato de Mão-de-Aço ser detentor de um machismo atroz e ancestral.
No momento em que escrevo estas mal traçadas linhas, Célio Mão-de-Aço morreu vitima de um atropelamento lingüístico ocorrido em frente à casa da Shirlene, que fica em frente ao Corujão, perto do balão da escola São José e ao lado do terminal de ônibus, local que todos conhecem.
O seu corpo magro e comprido ficou estirado durante dias sobre o asfalto esburacado daquela via, pois eu me recusava a aceitar a morte daquele verdadeiro Lothar, Robin, Tonto, Leonardo, Jonatas e quantos outros parceiros de duplas famosas possam existir no mundo real ou imaginário. A morte prematura daquele que eu considerava a enciclopédia universal ambulante do conhecimento inútil provocou-me uma espécie de angustiosa revolta resignada e silenciosa, e clamava por uma manifestação catártica qualquer, que veio na forma de crônica de um tempo que se perdeu junto com a força que eu antes possuía de recuperação e que agora se me fugiu inexoravelmente. Célio, porém, permanecerá vivo em minha memória perenemente e, todas as vezes que eu me debruçar sobre cada um dos meus projetos quixotescos, para meditar sobre qual a forma alternativa a aplicar naquele momento, hei de pensar em voz alta: Se o Célio estivesse aqui, ele diria: “Num faz desse jeito, não, corno véi, que não vai dar certo... Segundo um estudo dos americanos o melhor é...”
Descanse em paz, meu amigo, porque eu realmente era uma canseira...


Paulo Dagomé é pretendente a artista disfarçado de mistificador.


(Crônica originalmente escrita em novembro de 2005)

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