Antologia poética de Paulo Dagomé - Parte 1 de 7

porque me treme assim a perna quando penso no futuro


e as luzes que enxergo mais me cegam que me guiam?

se no olho do ciclone está o cu da calmaria

onde estão os mecanismos que aciono e me aliviam?



porque me dói tanto o peito quando o ócio me domina

e enxergo com clareza o que se embota na labuta?

a dor cava meu coração com a lâmina da enxada fria

mas a angústia aguça a audição e coloca-me à escuta



das lágrimas que oculto suas formas estalactíticas

no âmago da divisão entre a alma e o espírito

forçando-as a revelarem-se no epicentro do mistério

derrubando torres pontos parapeitos totens mitos



e eu aqui nessa agonia às quatro e quarenta e quatro

relacionando os porquês nesta lista heterogênea

vejo aportar madrugada na contemplação do não visto

não tendo tocado um dedo na que dorme ao lado fêmea





***





tua cabeleira de aço



tua beleza de pedra

me atinge nas manhãs como o arpão de um pesqueiro

peixe passarinho flor



tua palavra berilo



meu olhar pedra-sabão

resiste heróico ao cinzel

que trazes ambidestra mão



tuas receitas de vida



assentamentos monetários

ócio sesta pergaminhos



tuas partituras diárias



que corôo de acidentes

mel farinha rapadura



***



ando disperso como uma andorinha

ando sem verso e sem paz

ando um rapaz incapaz

ando não não ando mais



estou parado e em silêncio

come-me um tempo voraz

quem me criou te criou

para ser meu capataz



estou andando para trás

desengolido do tempo

desando massa de bolo

imerso em meus vendavais



acelerou-se o processo

vejo o nascer de meus pais

quem te criou este ícone

foi quem me fez incapaz



agora estou pintando o tempo

com a cor que o faz não ser visto

teus traços num croqui ao lado

e ao lado meus traços ou isto



***



tudo a mesma grande mágoa

tudo a mesma grande nesga

que fez a boca de sino

na barra da minha calça

que faz a vida ser coisa

sem rumo que faz o riso

ser a grande nódoa auréola

de nicotina nos dentes

da boca enorme do tempo



tudo a mesma mancha de esperma

sobre o teu lençol adolescente

tudo o mesmo mênstruo absoluto

tudo abstração

obstrução

a besta fera cavalgada

pela dama de escarlate

tendo à mão direita o cálice

da ira de Jeová



tudo a Bahia e seus homens

tudo sua mancha seu sêmen

tudo sua pecha e estigma

tudo seu tudo e seu nada



rosas no chão da esplanada

risos no vão da escada

rezas vãs pro mau olhado

que me acompanha mainha



e a espinhela caída

da humanidade inteirinha



não aguardem a chegada

do que não virá ainda

que abatamos as estrelas

com o laser do nosso ódio



os nêutrons do nosso amor



***



todos os dias estranhamente me levanto

repito os movimentos como autômato

e visto a mesma roupa e um mesmo copo

recebe o fumegante líquido escuro

em que os últimos trinta ânus se embebedaram

como se houvesse algo de importante

uma missão uma alegria um só instante

em que não precisasse consolar-me

e encorajar-me para continuar vivendo

e inventando inventos para reverter a falta

de sentido para a máquina do existir insano

em busca da ilusão da esperança

em busca da ilusória felicidade

um raio xis da alma te revelaria

ó minha insana amiga injetada em mim

como uma droga inacessível



toda a descrença

a exatidão da fé pela descrença

a imensidão da certeza na dúvida



***



o meu futuro é um cadáver espichado no convés

de um barco abandonado ao capricho das marés

passam ilhas e arquipélagos e eu desnatural de mim

não me encaixo na moldura de madeira ou de marfim



desce a chuva sobe o sol mar e céu tudo é antigo

mas o abismo de ser eu não se ausenta de migo

e a todo momento a culpa de ser ateu ou cristão

sempre na linha de frente da dura competição



e a embarcação segue a esmo sem fantasma a assombrá-la

não acha praia nem porto por isso mesmo não encalha

que as tuas areias não possuem a ideal densidade

ou desviei-me da rota ou então perplexidade



***



... não é nada disto de mar e céu e sol e embarcação

o meu futuro é uma velhinha que faz crochê na prisão

como ninguém a visita e como tem pouca linha

assim que acaba o trabalho ela o desfaz e principia...



***



ponho o cadarço no meu tênis branco

alvejado pelas mãos desta maria

antiga como os croquis de adão e eva

fileira interminável de marias



são diversas suas cores seus aromas

são difusos seus conceitos seus fonemas

são dispersos seus abraços e personas

são disfarces seus apartes e firulas



andas contentes como gazelas cretinas

sempre sedentas comem meu sêmen com tara

vivem presentes vivem ausentes mas sempre

pudicamente mesmo as piranhas e as putas



minhas idades minhas vaidades sacanas

minhas desumanas obscenidades bacoanas



***



TEMPO



estou olhando o tempo de perto

menino esperto filho de Esparta

estou olhando o tempo nos longes

estou olhando o tempo atento

malemolento mole mulato

estou olhando o tempo um instante

estou olhando o tempo e seus truques

trouxe minha trupe uns estrupícios

estou olhando o tempo e seus trotes

estou movendo o tempo ao contrário

ora sou vários ora nenhum

estou movendo tempo ao inverso

estou nivelando o tempo aos meus trinta

mais de trinta trinta e tantos

estou aprumando o tempo aos trancos

estou tratando o tempo e seus traumas

minha paz o acalma paz aparente

estou enredando o tempo em suas tramas

estou aparando as tranças do tempo

está mais lento parou

estou congelando o tempo um momento

estou retrocedendo com o tempo

tenho vinte tenho menos

estou adolescendo uns instantes

estou acelerando o movimento

agora sou bebê mero espermatozóide

perdi o domínio e senso

agora é pré-história neolítico

olha o mundo há pouco resfriou

agora Deus nasceu por entre as trevas

agora eu sei quem foi que o criou



***



quero pra você o som dos raimundos

saia curta e tamanho faceiro

pilar carne de veado pra fazer tua paçoca

lavar tua roupa de baixo com sabão da minha vó



quero tua castidade invencível minha doce cunhatã

quero mandar pelo rádio uma mensagem chinfrim

quero teus pêlos tosados pela tesoura de edward

suores na noite candanga no andar superior



ou na escada



ou na rede



ou no manto carcomido de Nabucodonosor

enquanto lairton extrai mel de abelha do teclado



no subsolo do palácio da alvorada ao amanhecer

ou sob a guarda de um dragão impassível quero ter

os teus dogmas espremidos numa descarga de hormônios

e chega de nhém-nhém-nhém que de noite eu vou te amar



sem ligar pro celular

e sem dar bola pros neurônios



***



ofício mais besta este

mais que inútil

este ofício

ofício mais difícil este

orifício mais profundo

artífice do absurdo

ser-te

sentir-te o eu o ego o id o fundo

ofício mais inerte

quanto mais hábil

moribundo

ofício triste

de um benefício agudo

e mudo como um beduíno atravessando o Tibete

com seu camelo manco

imundo

importa não se vai chover

importa não se o sol arder

importa a capacidade

importa a incapacidade

do meu ofício exercer

ofício mais impulsivo

ofício mais implosivo

esse de fiar tecer

aranha do palavrório

formiga de verbosia

cigarra de cantar você



ofício mais desafio

em cujo tênue fio me fio

e afio

a lâmina de espadachim do ócio

do cio

cissio

sibilo

assobio

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