FEIÇÕES BUCÓLICAS DE UM DERROTADO - Quem convidou essa menina?


ou de como Devana incorporou a alma de Quasímodo
ou elementos para entender a transformação do homem em cachorro
ou subsídios para uma análise do insustentável peso do ser-derrotado por uma desconhecida do Vale do Amanhecer.



Era meia-noite em ponto quando Paulo Sérgio Sena Santos Júnior, vulgo Devana Fer Babu Pimenta adentrou com sôfrego cansaço mental a avenida São Sebastião, saindo da casa de Isaac Mendes após a fragorosa derrota para Joyce Macedo, uma garota sonhadora e ariana (Em mais de um sentido) do Vale do Amanhecer que, após ter derrotado Devana, já se achava a encarnação feminina do próprio Karpov. Joyce fora cruel. Quem convidara aquela menina pro grupo? As ruas, para o nosso querido Devana pareciam fios de elástico que esticavam à medida que seu destempero existencial avançava para um estágio de degradação somente comparável ao de Napoleão, ao sofrer uma derrota no xadrez para um servo de décima categoria. Alcançar o Residencial do Bosque, onde ficava o seu famoso e mal freqüentado cafofo, um barraco de meia-água que abrigava reuniões que não levavam a conclusão alguma, era questão de honra, mas o fúnebre fundo musical que o acompanhava  - e que emanava da vencedora - perturbava-lhe a mente a ponto de não ser possível concentrar-se na tortura timpânica que fatalmente lhe infligiriam Zeca Oreba, Ricardo, Zakuro e outros bastardos na rede social após saberem do ocorrido. Um tango talvez aliviasse a dor, mas o réquiem insistia em decibéis que extrapolavam em muito a barreira do suportável. Às vezes, a tortura cessava, para retornar em graus avassaladores.
A imaginação embaralhava peões, bispos e cavalos. Reis e rainhas digladiavam-se em cismas insanas. Devana alcançou as imediações da Vanguarda Vitrine Hall, local de memoráveis saraus do Movimento SuperNova, às duas da madrugada já sem qualquer capacidade de distinguir cachorro de urubu. A mente, bombardeada pelas risadas sarcásticas e diabólicas de uma vencedora insana como Joyce Karpov afligiam-lhe o sentido e o torpor dos nervos o obrigou a uma parada obrigatória na varanda da Vanguarda, de onde foi expulso por um cão cujo local de descanso era ocupado inconveniente e solenemente por um ser sórdido de pálpebras rasuradas e de narina que arrastava ao chão.
Um rancoroso monólogo desvairado assustou o vigia, que solicitou reforço policial urgente para a Vanguarda. Eram quatro da manhã quando Devana foi visto chorando, na esquina da Rua 21, jogando fora peça por peça de um conjunto de marfim herdado do seu tio Fábio Sena, quando ainda morava em Vitória da Conquista e derrotava a tantos quantos lhe apareciam pela frente. A mente, quando era possível executar funções, em eterno retorno ao lance fatal - o mate aterrador - buscava apropriar-se do momento no qual desandou o combate. Teria sido a troca do cavalo pelo bispo? Bem provável. Deveria ter, educadamente, derrubado o próprio rei? Talvez. Mas a mente de Devana não funcionava para dar conformação. O turbilhão de imagens engasgava o sentimento e tardava os passos, de tal modo que o sol já despontava no horizonte - que jamais fora tão escuro e tenebroso - quando Devana adentrou a rua tortuosa e poeirenta que o Administrador Jucélio insistia em ignorar não mandando fazer nenhuma infra-estrutura, tanto que Devana pode contemplar a própria face desfigurada numa das poças de água como um anti-narciso punk com o black power completamente desfigurado. A rua 21, familiar, parecia conter monstros, algozes, extremistas radicais, hitleres, stalins; tudo era horrendo e aterrador. Suas mãos tremiam à visão, em profuso embaraço, parecia liquidar qualquer pretensão de raciocínio. Cavalos saltavam, bispos rezavam, reis mandavam, peões obedeciam, torres gêmeas caíam, bin- Ladens sobrevoavam os céus com metralhadoras gigantescas.
O seu coração, aos saltos, como na canção, parecia um cavalo, em seu movimento, traiçoeiro, tabuleiro adentro. E ele pensava: “de fato, ali não há golpe de sorte, se pensam jogadas, destinos certeiros. O quadro é um mar quadriculado, sem ondas, parado, porém, de maré. Às vezes, um lance apressado, um passo mal dado resulta em revés”.
Agarrado ao portão de ferro já quase sem pintura da casa onde morava, Devana guardava consigo apenas um peão, que assistia ao enterro de sua última quimera, mas como uma pantera de ingratidão, que não emitia som, assobiava uma canção de Humberto Gessinger. Zeca Oreba, que a essa altura da madrugada ainda estava no Facebook teclando com Estela Sena e outros notívagos de plantão, ao ouvir o movimento um tanto estranho parecendo choro e ranger de dentes, depara-se com a triste e inesperada cena ao abrir a porta da frente e, a princípio enerva-se, mas, solícito, atende ao último desejo do quasímodo: traz-lhe uma bisnaguinha de dipirona e um copo d’água. Devana levanta então o olhar ao infinito azul longínquo e, ereto, corre à sala, apanha o Livro Sagrado na estante de Dagomé, o pseudo-ateu e parte rumo a Igreja Universal do Reino de Deus que fica em frente a Aquarius Bar, onde descarrega suas mágoas com mais de 900 pastores, numa corrente de lascar.




Num jogo de vida e de morte As brancas e as pretas Sobre o tabuleiro
Ali não há golpes de sorte Se pensam jogadas Destino certeiro

O quadro é um mar quadriculado Sem ondas, parado Porém de marés
Às vezes um passo mal dado Um lance apressado Resulta em revés

Os reis, as rainhas e os bispos Dominam a cena Com seu poderio
Da torre se avista o tablado Peões trabalhando Por horas a fio

O meu coração anda aos saltos Parece um cavalo No seu movimento
Selvagem e até traiçoeiro Vai sem cavaleiro Tabuleiro adentro

Parceiros
Duelam paciência
Por vezes se estranham
O amor e a ciência
As pedras ali não têm limo
E mudam de rumo
Por conveniência
Ou por não acharem saída
Não rolam, se deitam
No fim da partida

Link: http://www.vagalume.com.br/paulinho-da-viola/brancas-e-pretas.html#ixzz2qrufHhxS

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