O FOGO DO INFERNO - Um quase conto de natal por Luiz Cláudio Sena*

Obra de Zakuro Aoyama

Nunca a visão do inferno esteve tão nítida quanto naquela tarde. Nunca jamais meus pecados estiveram em alerta geral. Nunca. Digo porquê. Visito, vez por outra, um sebo existente na Estação Central da Lapa. É talvez o mais sujo dos sebos que conheço, e não é tarefa fácil achar algo digno de se comprar ali. Mas a menina que lá atende é vítima de meus comentários idiotas, de modo que vou mais em função do bate-papo que da possibilidade de achar alguma raridade. Na tarde daquele dia, em meio à enorme movimentação na Lapa, um sujeito, de terno e empunhando a bíblia, pregava aos transeuntes-pecadores. Não costumo resistir a tais manifestações públicas. Parei ao lado de uma das lojas para ouvir a pregação. Pelo conteúdo, não tive dúvidas que ele falava do apocalipse e, portanto, do fim do mundo. Estranhei, no entanto, que, embora falasse do último livro da bíblica, a sua estivesse aberta no meio – ali pelas proximidades do livro dos Salmos. Mas logo percebi que seria impossível segurar o microfone numa mão e a bíblia noutra sem que a mesma ficasse desequilibrada se aberta no último livro. Enfim. Em brados nunca dantes ouvidos, ele fez uma descrição minudente acerca da infra-estrutura inflamável do inferno, da eficiência de seus satânicos operários, do enorme número de recursos de sofrimentos disponibilizados àqueles que para lá fossem compulsoriamente indicados. Feita a descrição do inferno, o pregador deu início aos esclarecimentos quantos aos pré-requisitos necessários àqueles que vão pro inferno. Foi quando ele começou a falar do pecado. Enquanto ouvia, meditava sobre meus. Sim, já pequei. E peco. Mas algo estava me dizendo que havia certa desproporcionalidade entre o pecado e a resposta aos mesmos: o fogo do inferno. Errei muito, é verdade. Mas ficar por toda a eternidade com um tridente em brasa viva me sendo inserido (sic) no traseiro, convivendo com satã e seus asseclas, comendo, literalmente, o pão que o diabo amassa, não dá pra aceitar. Pensei em retrucar, mas vi que o palestrante não iria parar sua pregação para ouvir perguntas. A essa altura, ele era puro suor. O homem gesticulava como se estivesse – sei que é contraditório – endemoniado. Num dado momento, percebi que ele percebeu que eu era o único cidadão que parara para ouvi-lo. Todos os demais patrícios estavam, como formigas, indo ou vindo, com pressa. Percebendo que eu estava atento e que era o único que o ouvia, o pregador agora falava olhando para mim. O fato de ter um expectador, fê-lo dar maior ênfase às palavras e aos gestos, numa teatralização de dar inveja a Autran Dourado. Falava olhando para mim. Pelos olhos dele, vi que ele estava falando a um cúmplice, dialogando com alguém que o estava prestigiando. Havia um quê de gratidão naquele olhar. Em meio à multidão de transeuntes-pecadores, só um consciencioso-pecador estava ali para ouvir a voz do senhor – aquela que clama no deserto. Ocorre que eu tinha que ir embora, já tinha ouvido o suficiente sobre satã e seus talentos infernais. Mas achei que seria deselegante sair, já que, agora, o pregador falava somente para mim, tendo ignorado a todos – aqueles mal-educados-transeuntes-pecadores – já que todos o ignoravam, muitas vezes até esbarrando na pequena caixa de som instalada num dos pilares da Estação. O certo é que tive que aguardar até final da pregação. No final, ele passou a falar que só crendo em Jesus poderíamos nos safar das garras de satã. Falou que, se cresse, estaria salvo e, automaticamente, seria incluso na lista dos que habitariam os céus. Condenou aqueles que se apegam em estátuas, mitos, falsos profetas, dinheiro, etc. “Porque só Jesus Salva!!!”. Foi quando me lembrei de um comentário do Mário de Andrade: “Deus me perdoe, mas estou pensando em Jesus”, no conto Peru de Natal.

*Luiz Cláudio é correspondente do Movimento SuperNova em Salvador - BA e escreve no cemfinsluvrativos.blogspot.com 


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