ALBERGUE EM SÃO SEBASTIÃO: Causa ou conseqüência? Por Edvair Ribeiro


A construção do albergue, assim, de repente, colocou a comunidade de São Sebastião - DF, frente a uma razoável celeuma, quantitativamente destacada pela difusão nas mídias sociais, mas de pouco impacto agregador, já que, apesar do clamor “midiático internético” compareceram à manifestação pouco mais de cem pessoas. Quando digo “razoável”, o faço em respeito ao direito de expressão outorgado a todo e qualquer cidadão.
Fazendo uso do “meu” direito de expressão, vou tentar levantar a seguinte questão: O que vem ser um albergue? Nos moldes europeus, um albergue é uma casa de fora da cidade pra onde pessoas se retiram para descanso, comem, bebem e dormem pagando preços módicos.
Já no Brasil, o perfil institucional do albergue é de um abrigo para mendigos, desabrigados, moradores de rua, drogados, sem teto, e ou, os demais sinônimos ou termos pejorativos que caibam pra se referir à escória ou rebotalho da sociedade. Rebotalhos esses que são produzidos por nós, os membros da dita sociedade.
A meu ver, essas pessoas ou rebotalhos são o reflexo do nosso fracasso como seres humanos desenvolvidos, como homo sapiens, como gente. Mas fazem aflorar toda nossa hipocrisia e falta de senso critico quando nos deixamos manipular em nome dos interesses de políticos, de espertalhões e oportunistas. É ai que o maior país católico e, talvez, de evangélicos do mundo, contraria incisivamente a mensagem cristã.
O exemplo enfatizado na parábola do bom samaritano, reflexo da vida prática do próprio Cristo, compartilhada com os párias do mundo judaico, foi totalmente esquecido pelos seus discípulos modernos.
O modo como estes seguidores do Cristo vêem e tratam hoje os sem-tetos, leprosos, aleijados, mancos, esfomeados, prostitutas e os demais “rebotalhos” a quem ele acolheu e acalentou com palavras de esperança, dá-nos a impressão de que,
se o Cristo voltasse hoje, na forma daquele menino que nasceu na manjedoura de Belém, mais uma vez talvez não encontrasse um albergue pra se abrigar. Talvez nascesse ao relento e só sobreviveria por ter uma missão predestinada. Aos trinta e três anos seria de novo crucificado.
Sabem por quê? Porque nós aprendemos pouco com os próprios erros e alimentamos - ainda que inconscientemente - o processo seletivo da Grécia antiga, onde os deficientes eram sacrificados logo ao nascer. Podemos lembrar ainda a pratica genocida de Hitler, que começou com o extermínio por asfixia dos cidadãos alemães deficientes por monóxido de carbono, em caminhões baús fechados.  Inconscientemente parece ser esse o projeto que temos para os nossos rebotalhos ou nossa parte podre.
A existência dos albergues à moda brasileira atende os interesses de governantes descompromissados com o processo de justiça social, pois para eles dá mais lucro político e financeiro remediar que prevenir. Mas não devemos esquecer que o que gera clientes pros albergues são a corrupção e os políticos corruptos. E nós, enquanto família e membros da sociedade somos também fornecedores da matéria prima principal para essa instituição, quando nos furtamos do dever de cuidar das nossas crianças e assim formar cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres.
Confesso que não estou radiante com a construção do albergue. Eu preferiria, por exemplo, que essa verba fosse aplicada na Casa de Parto de São Sebastião. Na contratação com salário digno de profissionais de saúde. No investimento nas escolas, onde o cidadão receberia informação que moldasse o seu caráter, entre outras coisas.

Não! Eu não estou feliz com a construção do albergue. Mas como cristão, ainda que não seja um fanático, eu me preocupo com o ser humano - o bicho gente - por isso o que mais me incomoda não é a construção do albergue, mas sim uma pergunta que insiste em não calar: ATÉ QUANDO VAMOS CONTINUAR PRODUZINDO MATÉRIA PRIMA PARA OCUPAR ALBERGUES?

Edvair escreve no: umgrio.blogspot.com.br


paulo Dagomeh

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