Um pouco de minha mãe

Por Nanah Farias

Sessenta e cinco anos. Quase não tem cabelos brancos. Guerreira ainda cheia de força e vigor. Sertaneja forte e valente. Mãe de quatorze filhos, dez vivos, todos de partos normais. Passou por situações difíceis em sua trajetória paraibana.
Nascida de pai carrasco e preconceituoso e mãe totalmente submissa, cresceu e viveu quase toda a sua vida cuidando de serviços pesados na roça juntamente com seu pai e seus irmãos. Sendo a filha mais velha, era ela quem tomava o rumo da roça logo cedo com uma enxada no ombro, mas era o pai e os irmãos quem ditavam as regras.
Não podia olhar ou conversar com outros rapazes sem a permissão do pai ou dos irmãos, e não podia vestir as roupas que gostava, mas passava o dia puxando a pesada enxada que carregava no ombro todos os dias bem cedo. À noite, após a diária pesada, seus irmãos saiam para se distrair um pouco ou visitar as namoradas, mas ela, como mulher, tinha de ir para a cama cedo.

D. Severina aos 18 anos

O seu namorado só podia visitá-la aos sábados e domingos. “Moça direita não podia se encontrar com homens à noite, fica mal falada”, era a fala do pai justificando seu preconceito e machismo. Além disso, tinha que acordar cedo para a lida sertaneja que a esperava novamente no dia seguinte.
Casou-se aos vinte e dois anos com um bom rapaz, que tinha a sua idade. Após um ano de casamento, veio o primeiro filho e, durante quatorze anos seguidos, veio um filho após o outro. Levava uma vida muito humilde no sertão da Paraíba e viveu a maioria do tempo como retirante, de um lugar para outro sem ter terra para morar, sempre de favor ou sendo explorada por fazendeiros que precisavam da mão de obra pesada.
Carregando sempre um moleque pequeno escanchado no quarto, arrastando mais dois pela barra de sua saia e uma lata d’água na cabeça, andava ereta como se a vida lhe fosse fácil.
Acordava antes que o sol nascesse. Deixava a molecada ainda dormindo. Saia de fininho com um saco de estopa na mão e sumia no meio da plantação de algodão. Quando o sol acabava de nascer ela voltava com o saco de estopa cheio de algodão, que ela ia vender alguns dias depois.
A molecada ainda dormindo, ela preparava o desjejum e acordava um por um, e saiam todos em fileira para o açude (maravilhas quase extintas já naquela época) que ficava no terreiro da casa e dava um bom banho em cada menino. A água era tão quentinha que parecia que ela tinha esquentado no fogão de lenha todo aquele mundão de água. A molecada feliz não entendia nada e fazia o que ela mandava. Naquele momento único de felicidade, ela também aproveitava para dar seu mergulho no açude bem quentinho. Quando voltava dava o de comer que já tinha preparado, para o bando de meninos. Deixava-os trancados dentro daquela casinha que ela mesma chamava de tapera e ia ajudar um pouco o seu marido, que também já estava na lida desde o raiar do sol.
Bóia fria, carregava sacos de algodão nas costas que nem parecia uma mulher.
Cenas inesquecíveis que só fui entender mais tarde.
O algodão que ela colhera antes do sol nascer, vendia separado do montante colhido pelo seu marido, que não gostava daquela situação.
Após a venda, os dois juntavam a molecada no domingo e iam todos para a bodega fazer a feira da semana. Ela muito esperta e feliz como podia, aproveitava o dinheiro da venda separada e comprava retalhos de fazenda (tecido), para fazer roupas para os filhos. Não era nada fácil, mas, se não fizesse desse jeito, não sobrava para vestir toda a meninada.
Chegavam à casa felizes com os pequenos luxos e degustavam o pouco alimento como se fosse guloseima.
Antes de findar o domingo, a mãe guerreira (mais uma cena inesquecível) sentava diante de sua máquina de costura que funcionava com uma manivela, e, cantarolando tão serena naquele momento que era só seu, fazia os vestidinhos todos de babados e iguaiszinhos para todas as meninas. Os meninos também vestiam bermudinhas e camisas iguais.
Distante em seus pensamentos, parecia uma mulher feliz e nem pensava no trabalho pesado que ia enfrentar no dia seguinte repetindo tudo.
Severina, o nome já diz bastante.
Forte como um lajedo, cresceu em uma terra onde o solo racha de tão seco que até parece paralelepípedos.
Sem receber qualquer manifestação de carinho ou afeto dos pais, que sempre foram muito severos, ela não fala de amor. É dura com seus sentimentos, mas ama seus filhos como uma leoa e por eles briga como uma cangaceira.
Hoje com seus filhos todos casados, Dona Severina é aposentada, costureira, tem uma máquina de costura moderna e é empresária. Vende roupa de cama para suas colegas e vizinhas a quem ela chama de “minhas clientes”. Tem um senso de humor incrível e adora contar piada junto com seu neto mais velho.
É uma geminiana fantástica. Se fosse uma mulher estudada, seria uma empresária de sucesso.

D. Severina hoje aos 65 anos

Originalmente publicado no Blog da Nanah Farias. Disponível em http://blogdananahfarias.blogspot.com/. Publicado em 09/11/2011. Revisado por Daniel.

Daniel Pereira da Silva

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