Pílula Contracultural III - Drogas sem Tabus

Gostaria de compartilhar com você, leitor(a), alguns achados da preciosa obra de Keith Melville (Las comunas en la contracultura - Origen, teorias y estilos de vida. Traducción Rolando Hanglin. Segunda edición. Barcelona [Espanha]: Editorial Kairós, 1976. pp. 226-9), que ora resenho, mesclados a algumas impressões que tenho acerca da controversa problemática das drogas. Muito além dos dogmas e tabus.
Em uma sociedade cientificista/racionalista/objetivista que ignora a vivência mística e até nega o valor da experiência transcendental, talvez a maior das necessidades humanas, a abordagem das drogas revela duas posições bem distintas: uma fratura entre quem vive/viveu o consumo e quem não, nem pensa em fazê-lo, mas que se sente autorizado a julgar os que usam/usaram.
É evidente para muitos que o abuso conduz a formas destrutivas e autodestrutivas.
Surgem, então, aqueles que preconizam que a solução ideal seria legalizar/descriminar os narcóticos/psicotrópicos; outros, a proibição e ilegalização de todos. Acredito que esta é, na verdade, uma falsa polêmica.
Porém, nesse pântano de controvérsias, em que tanto uma quanto outra visão, apologista ou sensacionalista (midiática)/moralista/policialesca, encerra uma série de reservas, parece-me que o uso seletivo dessas substâncias com fins medicinais ou sacramentais/rituais/religiosos, e não como mera forma de entretenimento, seja realmente a posição mais sensata.
Nosso estreito sentido de realidade pode ser também uma enfermidade grave. Ora, não condenamos o uso de remédios fortes porque sabemos que, convertidos em uma dieta constante, poderiam acarretar efeitos daninhos. A mesma atitude deveríamos ter em relação aos elementos psicodélicos.
E o acesso? Quem terá? Quem será responsável por sua distribuição? Quem será digno de usá-los, e com que objetivo? Uma hipotética farmácia psicodélica traz, evidentemente, problemas muito mais graves do que a farmácia da esquina.
Mas muitos desses problemas se resolvem quando consideramos os psicodélicos como um sacramento, e limitamos seu emprego às cerimônias religiosas, tomando-os como agentes que limpam e nos proporcionam uma vida nova - êxtase e/ou catarse. É certo que, na história das religiões, essas substâncias poderiam ter adquirido ou exercido uma função muito mais importante. E não há melhor terapia de grupo para evitar "más viagens" do que estar rodeado por uma pequena congregação de crentes, em uma atmosfera de amor e confiança. A propósito, deve-se salientar a diferença fundamental entre aqueles que catalisam e ministram a droga - o papel do traficante e o do xamã: enquanto o primeiro se pauta por uma atuação comercial, visando o lucro como fim, o segundo age gratuitamente, de maneira a evocar e entronizar o espírito que arrebata, eleva, além das imanências do cotidiano vulgar.
Muitas pessoas se preocupam com os efeitos médicos dos psicodélicos, esquecendo-se das drogas convencionais, o que parece ser um caso suspeito de atenção obsessiva, um sintoma de que é outra coisa o que intriga os críticos. O problema se centra muito mais nas implicações sociais do uso das drogas e não em seus efeitos físicos. Tanto o cigarro quanto o álcool são maus para a saúde. Entretanto, não ameaçam nossa civilização. Ao contrário, o consumo de drogas constitui em uma das formas mais difundidas de rechaço da cultura dominante, contra o universo ordinário e suas concepções, obrigações e responsabilidades, pondo em tela de juízo conceitos básicos de nossa sociedade.

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