Tigresa



Quem me levou no Viela Sebo Café foi o Cris e o Léo. Cris é estudante de letras na UESB e trabalha com meu tio Maurício Sena no Hospital Regional de Vitória da Conquista.
Ir sozinho seria meio paia, afinal não conheço nada nem ninguém. Tio Maurício está de “resguardo”, pois acaba de nascer meu primo Bernardo Avelino, filho dele com tia Eliane Assunção.
Cris, este é meu sobrinho“, me apresentava tio Maurício em meu primeiro dia na cidade, em meus primeiros rolês. “Sua missão é levá-lo para tudo quanto é vagabundagem que tem nessa cidade. Ele chegou de Brasília agora e quer conhecer o movimento cultural e roqueiro da cidade, pois ele se mete com esses movimentos lá na capital. Agora, veja bem rapaz… nada de desviá-lo do mau caminho!“. E foi assim que Cris se tornou meu cicerone, meu Caronte pelas águas infernais e gélidas do Aqueronte conquistense. Para minha sorte, Cris é uma figura muito massa, simpática, agradável e inteligente, e seu companheiro Léo também.
O esquema aqui na cidade é o Viela, né não, Maurício? Toda quinta rola show do Movimento Fora do Eixo lá. Sexta e sábado também tem banda tocando. Inclusive, essa quinta a gente vai colar lá, tem um show de uma banda de Salvador“.
Opa!, pensei. A coisa parece promissora. O movimento Fora do Eixo também realiza shows muito Bons lá em BSB, então é uma garantia de coisa boa. Então o esquema ficou já meio que pré-configurado. Tio Maurício ainda me apresentou a uma figura chamada Camila, pessoa que não deveria trabalhar na área de comunicação, mas na de maternidade, tal a prolíficidade de seus membros anteriores. Ou nos leitos, alegrando os pacientes, tal a transbordância de sua simpatia e de seu sorriso. Aliás, tudo ali transbordava encantadoramente, sem sobrar. Lembrei de um trecho de música de meu pai: “(…)Nos seus mamilos há própolis que paliam minha doença. Na tua bunda há saúde para três mil cancerosos(…)”.
Em casa, tio Maurício acessou o site Som da Tribo pra conferir a programação. “Distintivo Blue e Banda Neologia, Salvador”. Em anexo, um vídeo do youtube de um clipe deles. Não vimos grande coisa no som… um riff muito legal, uma pegada massa, mas um vocal meio anacrônico. A vocalista tinha uma voz muito bonita, mas parecia deslocada do contexto. Uma voz aguda, um tanto quanto lisa, digamos, possante mas retilínia. “É tipo uma Claudia leite do rock”, pensei. Assim, já não esperava muita coisa do show, embora nada deixasse a desejar. Pra minha sorte, não confio nas minhas primeiras impressões. Sei bem como elas podem ser errôneas ou descontextualizadas. Sei como uma música pode soar ruim fora de um álbum. Sei como uma gravação pode ser injusta. E sei, claro, como tem banda ruim nesse mundo.
Na quinta-feira, então, rumamos para a tal Viela. Camila não foi. Pena. Tio Maurício me deixou na casa de Cris e, dali, estaria entregue a minha própria sorte, o que é ótimo. Tio Fabinho falou sobre ir também, mas ele fala e esquece, de forma que se esperasse por ele estaria na casa de Mainha (avó) até agora. Tentei ligar pra ele inúmeras vezes, mas ele não atendia, pensando que era minha tia Márcia (“empreita”, quase podia ouví-lo dizer). Fazer o que. Da casa de Cris, depois que Léo chegou, fomos ao famigerado destino.
Um clássico local freqüentado pela galera que gosta de um bom som. São Sebastião não tem um lugar assim. Brasília tem alguns, mas a galera das satélites não freqüenta muito, porque tem que gastar muito dinheiro com passagens, ingressos e consumo. “Lugares assim”, que digo, é um pub, com espaço agradável, decoração alternativa e uma galera massa curtindo sons massas. Mas obviamente não tem nenhuma viela onde tem um sebo que é um café, em BSB. À esquerda temos um balcão repleto de bálsamos ilusórios sendo comercializados, ao pé de cujo balcão se sentam promessas e passageiros, efêmeros e errôneos. Ao centro, as mesas e cadeiras.  E a direita, uma parede abarrotada de livros, VHSs, vinis e fitas de cima a baixo, de fora a fora. Em frente, o palco, guitarra, baixo e bateria, rock’n'roll. Parecia o meu lar. Tudo o que há de bom no mundo ali reunido. O público era meio que adulto. Adulto que digo é gente de uns vinte a quarenta anos, com cortes de cabelo sofisticados e moderninhos, roupas de cores incomuns (ocres, pasteis, negros, azuis), alternativas, e modos igualmente alternativos. Um típico público de faculdade, do tipo que ouve MPB, jazz, música cubana, rap africano e outras o obscuridades e blues. Isso pra generalizar, é obvio. E por falar em blues, o Distintivo Blues tocava, quando  chegamos. Muito bons! Já os conhecia, desde quando comecei a mandar alguns textos meus para o site Som Da Tribo, que é muito foda. Mesmo de Brasília, sempre confiro as novidades da cidade, e o D.B. é uma banda que sempre pinta por lá. Assim como já tinha ouvido falar muito do viela por esse mesmo site. Miguel parece ser uma figura fascinante e muito importante para o rock local. Mais cedo, ouvi entrevista do D.B. na rádio UESB. Achei no mínimo questionável dizer que o blues é coisa recente (ainda que relativamente) no Brasil, mas anyway. O blues que mandaram nessa noite era meio acústico, o que ficou lindo.
Mas o que interessa aqui é a banda principal. Neologia.
Nos primeiros acordes, pensei: “Hum. Mais uma banda que toca versões animadinhas de MPB. Vai ver que nem curtem rock. Mas tocam pra caramba!”. A essa altura estava sentado no sofazinho vermelho do viela, do lado da estantezinha giratória de livros, com belíssimos exemplares da literatura universal em formato de bolso. Estava me deleitando com um maravilhoso volume de poesias de Byron, capa amarela. Meus olhos faiscavam e minha mão coçava. Cris e Léo tinham ido “fumar”. A banda começou a tocar Sítio do Pica-pau Amarelo. Houve quem protestasse e debochasse. Eu adorei. Adoro a música, que fez parte de minha infância, e a interpretação estava legal.
Mais tarde, resolvi ir lá pra frente pra sacar a banda melhor. Mas já estava embalado pelo som a essa altura.
Comecei a observar os músicos individualmente: um baixista de óculos escuros (?), um baterista de cabelo até os ombros com cara de marrento, um guitarrista de cabelos cacheados levemente grandes e ar de “simplório virtuoso”. Talvez fosse o mentor da banda, ou não, mas passava essa impressão (mais tarde, vi que ele compunha boa parte das músicas). Mas o que me chamou atenção mesmo foi a vocalista (aquela que eu rotulei como Claudia Leite do rock). Não por ser uma mulher, ou por ser uma mulher bonita, ou por ser uma mulher bonita liderando uma banda de rock. Bem, quantas destas não existem? Isso não é o bastante para me impressionar.
Mas quando cheguei à boca do palco e vi aquela figura feminina derramando-se no palco, cantando versões tão viscerais de canções de MPB tão significativas… comecei a me derreter e romper minhas barreiras. Primeiro, me encantei pelo repertório, escolhido a dedo. Porém, muitas bandas têm um repertório até parecido. Depois, pela performance da moça… ou pelo conjunto estético que formava a sua presença ali:
Dona de uma beleza clássica de cantoras de MPB, ou, diria, uma beleza tipicamente baiana (digo isso sem uma gota de estereótipo), com uma blusa larga, esvoaçante, com rendas e cores claras, colares de contas e coisas assim, calça jeans e sandálias, numa espécie de êxtase glamouroso da simplicidade. O que poderia ser ruim, mas era bom. Cabelos cacheados castanho escuros (típicos!). Rosto aberto e sorriso fácil. E uma intensidade ao cantar que me derrubou. Vi seus olhos faiscarem. Sua garganta intumescer-se e avolumar-se ao esforço descomunal, ao mesmo tempo em que enrubescia junto com as faces, como que imersas no mais escaldante molho ou no mais ardente dos infernos. Os cabelos cacheados, embebidos (embusbebados?). Uma névoa vaporosa lhe circundando como uma aura mágica. E agora, a parte que mais me emocionou nisso tudo. Sei que podem protestar, me achar o mais terrível dos mortais ou me acusar de sérios complexos edipianos, mas sei no meu íntimo que não é verdade. E se for, e daí? Tô nem aí. Disso, porém, certamente sofriam outros pobres mortais que ali perto do palco estavam, vítimas da própria testosterona, ávidos por uma gota de atenção, sinceramente crentes de que poderiam levar a dona do palco para suas camas, ou de que tinham a obrigação de tentar, desferindo as mais cretinas e inférteis observações e elogios, os mais estéreis gritos e as mais tolas ovações. Tenho ainda John Lennon a meu favor! (Por quê?) justo nesse dia assisti “O Garoto de Liverpool”, dado a mim por tio Fabinho, uma cópia pirata muito bem feita das que só ele sabe encontrar (já me deu inúmeros DVDs de Rock de igual qualidade “inincontráveis” em São Sebastião). No filme, uma cena advocacional: A mãe “pra frente” do jovem John lhe pergunta: “Você sabe o que quer dizer rock’n'roll?”, ao que o ainda tolo J.L. diz que não, e ao que ela aproxima seu rosto do dele de forma impetuosa e sussurra, com um certo estalar do palato que, se não é lascividade não direcionada, eu não sei o que é: “Sexo.”, ela diz.
E é isso! Rock é sexo. E o que não é? Como disse tio Cláudio: Eros está em todo lugar.
Mas voltando ao assunto: a parte que mais me emocionou… O momento mais rock’n’roll desse alucinante delírio: o delta, o vão e o contorno gotejantes de seus seios. Eu sentia calor só de vê-la, ou só de vê-los. As sudoríparas gotículas espargiam-se encantadoramente pelos seus morenos seios intumescidos, excitados de música, evolando-se numa névoa púrpura, como se ela fosse um turíbulo mágico. Ela era um turíbulo efervescente que nos aspergia com o seu sagrado molho, molhando-nos a todos com seu miraculoso bálsamo. E eu ali, concentrado, imerso, hipnotizado, absorto na sua feitiçaria, na sua macumba, no seu “I Put a Spell on You”, viajando solenemente da curvatura de seu longo e elegante pescoço para o abismo perigoso dos seus seios protuberantes e dali para os seus cantantes lábios que não se moviam, mas dançavam em torno do seu microfone fetichista, e de lá pros seus olhos siderais, e então pros seus quadris bruxuleantes, e então pro seu gineceu serpenteante, e de volta pros abismos abissais numa eterna montanha russa que nunca me cansava.
Mal sabiam aqueles tolos que ali celebravam comigo que a moça estava se despindo inteirinha no palco, a cada palavra, a cada letra, a cada som, solo. Ela estava copulando ali no palco e ninguém sabia, cegos de testosterona e tolice.
Uma tigresa de unhas negras e olhos cor de mel. Juro que foi a melhor versão da música de Caetano Veloso que já vi, e olhe que Ney Matogrosso é um páreo duro. Sua voz era massa, aguda, um tanto quanto lisa, digamos, possante mas retilínea, o que era lindo!
A música principal deles tinha um agradabilíssimo riff de guitarra e um arranjo fantástico, e a voz se adequava perfeitamente, sem o menor anacronismo.
No fim do show, estava bêbado de som. Não sei por que diabos, por que feitiço estranho, por que imperativo impulso do cosmos, no meio de tantos indivíduos ela veio falar comigo na saída, espontaneamente.
Aliás, eu sei: pois se tínhamos acabado de fazer sexo!

d.b

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Instagram