Emergência



Eu não sou louco. Acho que não sou o único que pensa assim. Mas também nunca vi ninguém se manifestar a respeito. Sobre aquela alavanca. Aquela maldita alavanca de emergência... Sabe aquela alavanca vermelha que fica na borda da janela do ônibus, coberta por uma capa vermelha, para casos de emergência? Pois é... Ela me obceca! Principalmente com as convidativas inscrições que a acompanham, como o enunciado de uma maldição no esquife de um faraó: Rompa o lacre apenas em caso de emergência. E, ainda como as paredes das pirâmides egípcias, as malditas instruções com desenhos justapostos.
O que eles querem? Colocando aquela aberração vermelha no meio daquele ônibus azul em descarada alusão ao governo que o comprou... Com certeza não foi feito para ser ignorado. Sou capaz de apostar minha alma, não que valha muita coisa, que boa parte dos freqüentadores diários dos transportes coletivos urbanos se entretém pensando exatamente a mesma coisa que eu... a cara de bocó que a maioria faz não nega.
Qual será a sensação de puxar aquela maldita alavanca? Gloriosa? Quase posso ouvir como um uníssono o questionamento coletivo.
Apesar de tudo, acho que poucos chegaram ao meu nível patológico.
Sim, meus caros, durante um período da minha vida, a obsessão por esse singelo mecanismo chegou a ocupar predominantemente os meus pensamentos.
Para mim, aquela alavanca representava um delicioso mistério a ser desvendado, um maravilhoso desafio que, quando vencido, me proporcionaria alguma benesse jamais vivenciada por nenhum outro ser humano. Como um orgasmo místico. Uma conjunção cósmica. Surrealismo.
Ou, no mínimo, eu seria o único que poderia contar como é a sensação de fazer o que ninguém nunca fez. Seria o único a poder contar tal travessura, o que me traria status. Porque, nesses poucos muitos anos que eu vivi, eu nunca ouvi falar de ninguém conhecido que já tivesse puxado a tal alavanca. E você? Aposto minha alma de novo que não.
A alavanca do paraíso... assim eu a chamava
Passei a freqüentar o ônibus da linha L2 norte assiduamente só para observá-la. Eu a ficava analisando. Decorando suas instruções. Lendo-as em português, espanhol, inglês e em braile. Desvendando seu mecanismo. E sonhando com o dia em que eu poderia enfim puxá-la...
Constatação óbvia: para poder puxá-la, como eu queria, teria que acontecer um acidente. Mas eu ainda sou muito jovem para morrer e não gostaria nem um pouco de ficar deficiente. Até que seria legal sofrer um acidente sem me machucar, mas aí já seria uma situação muito absurda e difícil de acontecer...
Então comecei a considerar outras possibilidades. Sim, eu estava disposto a puxar a maldita alavanca... e pra isso precisava de um plano. Que não envolvesse um acidente.
E se, ao invés de um acidente, eu apenas simulasse uma situação de perigo eminente, em que puxar alavanca parecesse uma solução viável e que todos concordassem? “nãooooooo! o ônibus vai bater! Vou puxar a alavanca e pulaaaa--
Ahaha! Como se alguém fosse cair nisso.
E se eu pegasse uma linha bem vazia, em que não tivesse ninguém, e, quando estivessem todos distraídos, ou quando o ônibus estivesse quase parando, eu puxasse a alavanca e pulasse pela jan--
Provavelmente eu seria pego ou pelo cobrador ou por alguém. Além do mais, por mais especialista que eu seja nas instruções da alavanca, eu não tenho a menor experiência prática. Vai saber?
E se eu entrasse num ônibus lotado, fingisse que estava passando mal e puxasse a alavanca como minha última alternativa?
...
Eu já estava desistindo. Já estava começando a desejar, muito avidamente, que acontecesse um acidente de verdade só pra eu ter, enfim, o prazer de puxar a bendita alavanca... Eu cheguei mesmo a pensar que ela não foi feita para ser puxada, ou que algum tipo de misticismo a envolvia, impedindo-a de ser puxada. Você já viu algum documentário com a manchete: “ônibus capota na Via EPIA. Passageiros sobrevivem puxando a alavanca de emergência...
Ah! O doce mistério da alavanca! Mistérios me seduzem. E eu queria encerrar aquele de uma vez por todas, nem que pra isso fosse necessário...
Um acidente. Estávamos saindo da pomposa ponte JK. Estava chovendo. O dia começava a anoitecer, trazendo consigo o lusco-fusco Morgante das seis da tarde. O ônibus derrapou. E eu...
Fiquei imóvel, bestificado, olhando fixamente para a maldita alavanca dos meus sonhos e dos meus tormentos. Era o meu acidente. O meu acidente. E eu apenas fiquei parado olhando a alavanca. Catatônico.
A última coisa que vi antes de ficar inconsciente foi um casal de namorados brigando e discutindo entre si:
- EU vou puxar a alavanca!
- Não! Eu vou puxar! Eu sempre sonhei com isso!


...


Prólogo:
Ninguém puxou a alavanca.

d.b

3 comentários:

  1. esclareço que a minha idade e posição não me permitem admitir que até hj cultivo o mesmo mórbido desejo de puxar a indefectível alavanca mas prefiro morrer de morte morrida aos 120 anos do que sofrer um acidente pra matar o meu desejo. Os bons morrem antes... os melhores morrem depois.

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  2. Eu vivo atravancando , travando, bloqueando os morbidos e abestalhados pensamentos, que incidem em meu limitado cerebro, ante a possibilidade de antegozar o momento de fazer uso da emblemática trava da saida de emergência.

    E como diria o crítico português, e eu, se português fosse (como se ser negro e português fosse natural)- D'vana tu'es bestiall!

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