Renato



Dedico esse texto a todos aqueles que já me ouviram fazer o meu discurso anti-Legião, ou ficou sabendo dele, em especial ao causador dele, e à Devana Babu (o maior advogado de Legião Urbana).


O carro estava saindo de um semáforo vermelho e a velocidade ainda nem tinha atingido os seus 30 km/h. Eu estava no banco da frente e, no meu colo, dormia pacientemente Syd, enquanto Angus detonava com os auto-falantes quase mudos de um Fiesta punk. Foi quando ele se debruçou sobre o banco que eu me sentava e disse assim:

Uma vez, Renato Russo estava no aeroporto - eu não me lembro de qual cidade, mas era um aeroporto - e uma mulher parou ele dizendo:
- Seu desgraçado, você não tem direito de fazer isso! Quem deixou você fazer isso com a minha vida?!
E ele disse:
- Se liga, nem sei quem você é!
Aí a louca falou:
- Como você pode falar da minha vida naquela música?! Como você pode?

Foi uma história que não saiu da minha cabeça. Naturalmente, eu falei no tom mais voluntarioso possível:

Ainda assim não gosto da voz do Renato.

Mas de fato a história ainda não saiu da minha cabeça. Ele ainda me falou de algumas coisas, sobre o que o RR sentia e que muitas pessoas, apesar de não passarem pelas mesmas coisas, sentem algo com as músicas que ele escreveu. Então eu me lembrei de quando meu pai me falava sobre sua heróica juventude, ou de algumas outras pessoas que me falava sobre RR incansavelmente. Lembrei-me de Paulo na Noite do Vinil. Lembrei-me de Devana me dando um esporro em defesa a obra de RR. Logo, tentei me recordar o mais breve possível de todas as coisas que ele dizia em suas músicas. Percebi que muitas delas são coisas que eu disse. Nossa! Quantas coisas em comum. A forma de esmiuçar a história, transformar um simples fato em um acontecimento histórico (Eduardo e Mônica - Ed e Ella). Ou coisas pequenas como deitar e acordar da mesma forma. Ou ter um grande medo de pequenas coisas. São coisas tão simples que só me convenciam do meu maior pecado: Sim, eu seria uma dos fãs loucos e desesperados de Renato Russo, compraria pelo menos umas 17 camisetas com ele ou letras deles, trocaria qualquer uma das minhas falsas definições por uma música dele (se eu o fizesse, colocaria Metal contra as Nuvens)... Sim! O mundo se viraria e diria que meus discursos anti-Legião eram falsos.

Então, quando o desespero já tinha batido com a força de dez batalhões, com 20 mil soldados em minha cabeça, comecei a ver a real situação. Comecei a me lembrar da razão do meu repúdio pela música da dita banda e me lembrei que tudo tinha começado antes mesmo de eu nascer. Lá no dia 1º de maio de 1990 foi plantada a semente do meu ódio mortal por Renato. Eu nunca tinha parado pra pensar desse modo, mas é verdade. Isso nasceu antes de mim. Naquele dia Pais e Filhos ganhou uma nova conotação, ganhou uma versão que foi levada a capela, erguidas sobre um campo verde cheio de esperanças. Ela ainda não consegue falar muito sobre isso e eu nem quero entrar nesse quesito. Mas eu ouvi essa história diversas vezes e entendo.

Isso se deve, porque, quando ouço uma música que não é da minha época, é como se eu fosse transportada no tempo e espaço, começando a me ver na mais recente memória que tenho daquela música. Por exemplo, quando ouço Ball and Chain, de Janis Joplin, me transporto automaticamente para Califórnia, no Monterey Pop Festival, e consigo ver ela desabrochando como uma rosa no palco que ficou pequeno para ela. Quando ouço The Wall, do Pink Floyd, me sinto no meio daquela multidão de crianças que fizeram o filme, e vejo descendo de um helicóptero umas das mais potentes mentes que já esteve sobre a Terra. Quando ouço Purple Haze, do Jimi, me sinto numa quadra vazia olhando uma fogueira fraca, enquanto tudo o que eu ouvia é "Excuse me while I kiss the Sky". E Summertime me leva para o dia que Jim morreu. É engraçado, as músicas surtem um efeito bacana em mim. Mas quando penso em Legião, as lembranças que tenho não são tão boas. Me transporto para um lugar fúnebre, para uma calçada molhada, para uma rua sem fim. Mas me esforcei e me lembrei! Lembrei de um dia, um dia antes citado, em que em minha casa fizeram um culto. Eu estava tão bêbada que não percebi, mas as músicas dele estava passando repetidamente e eu me sentia bem.

Essas palavras, que não têm nexo algum, foram todas unidas no instante em que saímos do Pão de Açúcar. É uma vergonha tão pessoal e um orgulho tão momentâneo...

Anne K.

5 comentários:

  1. Poxa, até que enfim a Escutaí voltou!
    Quão jubiloso estou.

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  2. Anne, minha ídola, aqui é o dagomé. Eu queria tanto ouvir vc dizer ao final: Eu também amo a Legião... Fala aê, vai!

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  3. Não. Continuo sem gostar da Banda. Só gosto das palavras do Renato. :p

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