Rebelde Sem Causa II

Eu estava lá, meus jovens!

Por Devana Babu

Após longas negociatas e argumentações, além de ter empenhado uma tira de coro minha, consegui convencer meu amigo Daniel Pereira da Silva, guru burguês do grupo SuperNova, a me emprestar um dos volumes de sua fabulosa biblioteca particular que muito me interessou: um livro chamado puramente “Woodstock”, de Pete Fornatale. Não, eu não vou te emprestar (morra de inveja!).

Lendo o livro, velhas ideias e perturbações me vieram à cabeça. A questão básica é (momento clichê): o que fez meio milhão de jovens se reunirem no meio da roça de Nova York (alguma coisa assim tipo São Sebastião), suportando as mais ingratas intempéries, para curtir três dias de paz, amor, rock, e, claro, drogas e sexo?

A resposta é meio simples. Estes jovens tinham uma conexão muito forte entre si, aspirações, sonhos e desejos. Não eram um movimento organizado com bandeira, slogan e casa da árvore. Mas ainda assim tinham muito em comum. E o principal: eles tinham um inimigo! Eles lutavam contra a “quadradice”, contra o modo de vida capitalista, contra tudo o que era antiquado, contra a violência humana, e por uma vida mais comunitária e amorosa. Flower Power. Scooby Doo. Etc. E tudo isso era personificado por um momento muito tenso e, porque não dizer, oportuno: a Guerra do Vietnã.

Pronto, estava elaborada a fórmula que culminaria no maior festival da Terra.

Aí eu me pergunto: será que Woodstock pode acontecer de novo? Essa pergunta se torna ainda mais conveniente com a iminência de um revival do festival que, dizem, vai acontecer por esses trópicos, na nossa terra tupiniquim.

Aproveito para declarar em primeira mão que eu tive um sonho (né não, Luther King?). E eu tenho um plano. Acreditem ou não, algum dia eu vou fazer um festival mais f@#% do que Woodstock. Como? Onde? Quando? Não sei. Mas vou. É um dos meus sonhos megalomaníacos. O outro é conquistar o mundo. Espero que meus amigos compartilhem esse sonho comigo. Porque, se não, se lasquem doidos, eu faço sozinho.

Mas em relação à pergunta do outro parágrafo, a resposta é: não. Woodstock não pode acontecer de novo.

A verdade, a grande verdade, é que nós estamos colhendo os louros de uma sociedade um pouco mais justa e boa do que a dos nossos antepassados. Não é que nosso mundo seja realmente perfeito. Mas não é uma desgraça, como antigamente. Não temos a Guerra do Vietnã. Guerra do Iraque? Bem, sendo bem sincero, ela não chegou em São Sebastião. Desigualdade racial? Existe sim! Mas não é como na época de Malcom X. Ser preto hoje é moda. O capitalismo? Eu gosto do dinheiro. O que me incomoda na verdade é a falta dele. Mas não creio que a luta contra o capitalismo seja legitima. A verdadeira luta é pela igualdade. E pela justiça. Igualdade entre os gêneros? Fim da homofobia? Respeito entre as nações? Ambientalismo?

É, temos muitas coisas para nos preocupar. Muitas causas para lutar. Muitas coisas para consertar no mundo. Mas não podemos negar: nossos pais nos deram um mundo muito bom. E mais ainda: por mais causas justas que tenhamos, nós não temos “A CAUSA” (sublinhado, em negrito, itálico e CAIXA ALTA). Aquela que arrebatará nossos corações e escreverá nossos nomes na história. "Abaixo a ditadura". “Love and piece.” “Black Power”. “Imagine”. “Independência ou morte”. “La placita Castro Alves és del pueblo”. "Impeachment". “Fora, Collor!” “Libertas quae sera tamen”. “Liberté, Igualité, Fraternité”. “O povo unido jamais será vencido”. “Fora, Batista!” “Hasta la vitoria, siempre!” e, porque não, “Anauê!”.

Somos uma geração sem slogan. Mas isso ainda pode mudar. Vou tentar inventar uma para que possamos fazer um festival mais legal do que Woodstock. Guardem minhas palavras.

Até lá, seremos rebeldes sem causa... E o tema do Woodstock Brasil será sustentabilidade na música. Nada mal, não? É uma grande evolução desde 69...

Publicado originalmente no sítio eletrônico do Móveis Coloniais de Acaju. Postado no dia 19/05/2010. Disponível em http://www.moveiscoloniaisdeacaju.com.br/blog/1083. Com correção do co-editor Daniel, que, mesmo com o ego massageado pelo "Pequeno Gafanhoto", continua um implacável e impiedoso turrão da "Última Flor do Lácio, Inculta e Bela"...

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