Manifesto em prol da cola

Ou: levantamentos em defesa do uso legal do "intercâmbio-científico-filosófico em período avaliativo"


Tendo nas diferentes regiões suas variantes de nome, mas sendo igual nas técnicas e abordagens, existe no âmbito dos ambientes colegiais uma pratica que é secularmente tida como ilícita, que é condenada e punida severamente por professores, diretores, coordenadores, C.D.F.s e outros representantes do setor arcaico-conservador e retrógrado das instituições colegiais, a qual passaremos a denominar como intercâmbio-científico-filosófico-em-período-avaliativo mas que é comumente conhecida como "Cola". Dessa forma, milhões de alunos vem, ao longo dos tempos, sendo reprovados ou, no mínimo, tirando notas mínimas e, saindo um pouco do âmbito colegial, a sociedade passa a vê-los preconceituosamente e, graças à difusão e predomínio de uma visão totalmente cega e atrasada, a discriminá-los impiedosamente, impedindo-os de desenvolver suas capacidades e habilidades. Os sinais mais evidentes desse comportamento são o aumento de turmas de primeiro ano e a diminuição de segundos e terceiros anos, aumento do índice de reprovação, aumento do índice de desistência e diminuição do índice de ingresso nas Universidades. Ora, mas é claro! Como é que vocês querem que o aluno se mantenha na escola se depois de 200 dias de labuta ele vai receber a noticia de que vai ter que labutar a mesma labuta no outro ano? E como ele pode passar pra labuta de nível seguinte se durante uma maldita prova ele nem sequer pode usufruir dos conhecimentos do colega?!

Além do que, senhores, essa atitude em relação ao INTERCÂMBIO FILOSÓFICO-CIENTÍFICO EM PERÍODO DE AVALIAÇÃO COLEGIAL, que os retaguardistas insistem em chamar de "cola", fere mortalmente os ideais socialistas e até democráticos, além de deixar um legado negativo para a sociedade e prejuízos irreparáveis para o avanço da luta pela diminuição do abismo entre as classes. Sim, pois toda a problemática, independente de se estar no pior colégio público de sapê ou de zinco ou no colégio mais caro e com os métodos mais sofisticados de ensino, começa por aí, desde o momento em que um aluno tem os trabalhos prontos e o outro não; desde o momento em que um aluno faz uma maquete gloriosa e o outro transforma sucata em sucata mexida; desde o momento em que, como numa sociedade há centros e periferias, uma minoria privilegiada senta-se na frente, e uma maioria obstina-se pelos cantos e fundos da sala, chamados odiosa, discriminativa e pejorativamente de fundões,e contentando-se com a cesta básica de conhecimentos que tem de mendigar com freqüência aos que detêm a posse de lugares frontais na sala; desde o momento em que, como governantes beneficiando a camada rica da população, nossos professores cedem privilégios aos que se sentam na frente, por vezes desprezando ou dispensando um tratamento deplorável aos que se sentam em lugares desprovidos de infra-estrutura na sala de aula e, obstinados com o descaso, entregam-se a conversas paralelas e, quando finalmente os professores resolvem dar-lhes uma breve atenção, f1agra-os em sua reação à ação desprezível deles mesmos, e passa a tratá-los como desordeiros desajustados e desinteressados. Isso nos casos em que os professores simplesmente não os expulsa de seu único pedaço de sala, querendo limpar seu mundinho perfeito dos miseráveis que, desprovidos das oportunidades, deixam seus protestos vazios de sentido, mas cheios de significado e sentimento pinchados nas paredes e murais da sala. Esses serão os mesmos que, quando adultos, reivindicarão pela reforma agrária e invadirão suas propriedades e causarão tanta guerra quantas as que hoje vocês acham absurdas, que são feitas muitas vezes em função do ressentimento à época do colégio e essa história toda se evidencia mais e é mais sentida quando numa maldita prova ele não pode usufruir do conhecimento de que seus vizinhos usufruem e como quem furta de um farto banquete à mesa estes, meus caros, serão os mesmos que, mais tarde, roubarão um pão para comer, serão presos, jogados à sarjeta, desprezados e esquecidos e dos quais vocês, C.D.F.s, em falsos surtos de heroísmo, sentirão pena e os defenderão. Os mesmos que, sobrevivendo tão à margem dos conhecimentos e excluídos do processo de discussão e decisão do colégio, perderão completamente a fé nas instituições democráticas.

Convenhamos que uma eleição venha a ser a mesma coisa que uma prova de múltipla escolha. Imagine que, durante todo o período de uma campanha eleitoral não se consiga entender qual o melhor candidato. Imagine que, não entendendo isso até a ultima hora, não se possa dar uma espiada em quem é que está votando o cara que está na sua frente e que visivelmente entende mais sobre o contexto político e pode apurar melhor quem é o candidato mais apropriado nas campanhas (que vem a ser como a matéria dada nos quadros durante o ano). Seria mais proveitoso, então, para a democracia e para a sociedade em geral que este eleitor "chute"? De forma alguma! Além do que, o intercâmbio cientifico filosófico em período avaliativo colegial é um exercício saudável de confiança, pois o individuo que está fazendo usufruto do conhecimento do colega demonstra incontestavelmente que confia no que este lhe transmite. E o transmissor (quando o intercâmbio é recíproco) demonstra que confia no uso que o colega fará do conhecimento repassado e, principalmente, que saberá esconder a "cola" a tempo ante a aproximação furtiva do professor de física, ou que se for pego, não dedará o transmissor. Isso claramente fortalece as relações em sociedade desenvolve o altruísmo nos seus praticantes, alem, é claro, de dar contribuição significativa à diminuição do abismo entre as c1asses. A “cola” devia ser, inclusive, institucionalizada e quiçá tombada pelo patrimônio histórico. A solução do país é o intercâmbio cientifico filosófico em período avaliativo!!!

Então, em nome do socialismo, da democracia, da sociedade, do altruísmo, e de um mundo melhor, vamos colar em todas as provas!!!

Cole essa idéia.

By Devana Babu
O Diogo Mainardi do Centrão

“A Gazeta do Oprimido”, Ano I, # 2, outubro de 05.

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